O Hércules Micaelense

João Joaquim de Azevedo


                                                      Vai contar aos leitores do “Diário dos Açores”
                                                       As suas empolgantes memórias

Praticando um acto de justiça, propusemo-nos a tarefa de revelar aos numerosos leitores do nosso jornal o que foi a vida aventurosa e cheia de horas de verdadeiro triunfo do Hércules micaelense João Joaquim de Azevedo, hoje inutilizado e doente, devido a um acidente.
Estamos a coligir as memórias de João Joaquim de Azevedo, que conseguiu ser, com a sua prodigiosa força braçal e dental, o atleta português que maior fama conquistou em numerosos países estrangeiros, onde assombrou as multidões mais exigentes com os seus trabalhos sensacionais.
Tendo-se exibido em inúmeros circos da América do Norte e do Sul de vários países da Europa, João Joaquim de Azevedo é um vencido, que vive apenas da caridade dos seus conterrâneos, esquecido de muitos e até injustamente considerado por alguns.
Bem sabemos que o pobre Azevedo nunca poderia ser “profeta” na sua terra, mas é lícito esperar que não se limitem hoje a ver o que ele é e esqueçam o seu passado e o orgulho com que ele, homem do povo, ostentou sempre na sua maturidade micaelense e levou a tanta terra o nome de S. Miguel.
È principalmente às novas gerações, que não conhecem o seu período áureo de atleta e só o vêem na decadência, que o Azevedo dedica as suas memórias, que começaremos a publicar na próxima segunda-feira.
Quanto aos mais velhos, estamos certos que terão também interesse nas suas memórias, as quais evocarão alguns episódios já conhecidos e revelarão outros inéditos para o público.

 I
A força do destino

Como prometemos iniciaremos hoje a publicação das memórias do Hércules micaelense João Joaquim d’Azevedo, contadas por ele mesmo servindo-se exclusivamente da lembrança que lhe deixaram alguns episódios da sua vida aventurosa.
Trata-se, pois, dum trabalho sem pretensões literárias, reproduzidas fielmente e ordenadas nas impressões do Azevedo que, analfabeto, sem qualquer preparação e contando apenas com os seus excepcionais recursos físicos, encarnando o espírito de aventura do nosso povo, se balançou a correr terras conquistando troféus, assombrando multidões e honrando com os seus trabalhos admiráveis o nome da sua terra e de Portugal.
Vencido pela doença e pelo infortúnio, o Azevedo, triste sombra do passado, que tantas vezes conheceu a embriaguez da glória, vai contar-nos a sua vida, evocando-a saudosamente.
Ouçamos pois:

Nasci a 26 de Junho de 1880, na freguesia S. Pedro, desta cidade, e fui baptizado na igreja daquela freguesia.
Sou filho de António José Joaquim de Azevedo, jorgense, que foi guarda-fiscal, e de Maria da Boa Nova, micaelense.
Meu pai bastante diligenciou que eu aprendesse a ler e a escrever, e durante toda a minha vida, que não é curta, pois já fiz sessenta anos, hei-de arrepender-me e envergonhar-me do meu analfabetismo, que tanto me prejudicou.
Estive na escola não sei quantas tempo, mas nunca passei do B-A, BA. Um dia, depois de várias provas da minha incapacidade para o estudo, o professor chamou-me ao quadro, onde tinha escrito um V e um I. Perguntou-me: - V e I?
Eu comecei com grande esforço, buzinando a primeira letra:
- V… V… V…
Até que o professor, Aborrecido, disse.
- Já chegou o vapor!
Mandou-me sentar e nunca mais me chamou. Passei a fazer parte da mobília, esquecido a um canto da sala, até que um dia meu pai, talvez a conselho do professor, me tirou da escola, ignorante como para lá entrara.

Os primeiros combates…

Fui com oito anos para casa de minha irmã, que estava casada em Angra do Heroísmo. Pouco tempo depois empregaram-me na loja de João Tamujo, aos Quatros Cantos para fazer voltinhas.
Os garotos metiam-se comigo e provocavam-me. Sempre fui pessoa paciente e discreta, mas o dono da loja quando via que a troça já era muita, e se juntavam em frente ao estabelecimento cinco a seis rapazes, dava-me liberdade para me desforrar. Sem grande dificuldade corria-os então ao sopapo. Vinham fazer queixa à loja, mas o patrão dizia: - O pequeno não se mete com ninguém. Só quando o provocam de mais é que lhe dou licença para se desforrar.
Um dia, porém fui apanhado de surpresa quando conduzia uma pequena carroça de lenha para casa do patrão. Os garotos que tinham já experimentado as minhas mãos, apanharam-me em lugar ermo e descarregaram com tantas pedras sobre mim, que tive de esconder-me debaixo da carrocinha para guardar os miolos como pude. Umas senhoras que assistiram à terrível vingança, chamara por gente, até que me libertaram do perigo das pedradas.
Quando tinha mais alguns anos e estava de novo na minha terra, meu pai escolheu-me o ofício de marceneiro. Estive trabalhando com o mestre Correia, no canto da Vila Nova em cima e, depois, fui para o mestre José Luís Lopes.

O que tem que ser…

Um dia apareceu no teatro Micaelense uma companhia que trouxe o Hércules português Serafim da Silva, que apresentava trabalhos perigosos, alguns de colaboração com o argolista João Lagos.
O Serafim da Silva levantava um barco com oito pessoas, que era colocado sobre cavaletes, no palco.
As proezas do Serafim da Silva, desconhecidas até então na nossa ilha, despertavam grande entusiasmo no público e principalmente nos rapazes daquela época, devendo eu ter, nessa altura, uns 16 ou 17 anos.
Todo o dinheiro que guardava era para ir para a galeria do teatro, presenciar os trabalhos do Serafim da Silva. Não falava noutra coisa e até sonhava com os números do atleta.
Comecei, então, a experimentar forças e passei a pegar com facilidade numa peça de três quartos de cómoda de pinho resinoso, móvel que costumava ser deslocado por dois homens.
Numa das ocasiões em que fazia esta prova parou um senhor à porta da oficina e disse:
-Bravo! Bravo!
Perguntei, então, a um dos meus companheiros de trabalho, quem era aquele senhor, sendo-me respondido:
- É o senhor Sequeira da ginástica.
Nunca mais deixei de brincar aos atletas e arranjei pesos de pedra para imitar o artista do teatro.
Pedi ao senhor Júlio Moura uma barra de ferro para os meus trabalhos.
- Se trabalhares bem, ficarás com a barra, Senão, ela irá emprestada.
A barra não era para brincadeiras, pois pesava 70 quilos. Comecei logo a tomar-lhe o jeito e o peso.
Um dia o senhor Júlio Moura, que era muito boa pessoa, foi ver-me trabalhar na Fajã de Cima, num granel próximo do Largo do Chafariz, onde se exibiam vários amadores, entre eles o senhor Francisco Soares Silva, que apresentava cançonetas e monólogos, o mestre João Diogo, dos cavalinhos, o Eusébio dos forças, o Virgínio Escorrega, que trabalhava em argolas e barra fixa, o Carlos Pacheco, o Tavares Fidalgo, etc.
A “União” ia tocar por 9$000 réis e quando lá chegava não dávamos vencimento á venda de bilhetes. Uma entrada custava um pataco. Belos tempos que não voltem!
O senhor Júlio Moura gostou do meu trabalho, entusiasmou-se mesmo. Deu-me algum dinheiro e disse-me:
- Azevedo! Nunca esperei que trabalhasses assim! A barra pertence-te. Continua a aperfeiçoar-te e hás-de de vir a ser tanto ou melhor do que o Serafim da Silva.
Foi o primeiro ânimo que recebi e valeu-me tanto que todas as horas vagas eram para me exercitar.
Não muito tempo depois instalou-se no lugar onde hoje existe o Clube União Sportiva uma companhia de circo da Família Paterna, que pertencia à companhia Nava.
Picot, o melhor trapezista que tenho conhecido até hoje, gostou do meu trabalho e da minha vontade de trabalhar. Com ele aprendi muito, pois ensinou-me o melhor método de pegar em pesos, mesmo dos maiores.
Passei a fazer parte do circo, mas por amor à arte, pois não me davam nada. Trabalhei em alteres e em trapézio, de curvas, de cabeça para baixo, suspendendo pelos dentes vários artistas.
Nas corridas dentais descia do lugar mais alto do circo para o da saída dos artistas.
A temporada acabou e a companhia dividiu-se. Uns foram para o Faial, outros para a Madeira e ainda outros ficaram cá, percorrendo a ilha.
Fui para a Ribeira Grande, com a família Paterna, trabalhando só pela comida. Durante três meses fiz atletismo num granel.

A primeira “ tournée”

O velho Paterno disse-me um dia:
- Faz hoje o melhor que puderes. Talvez sejas contratado com a gente para as ilhas. Vem aí o empresário, o senhor João Leite da Gama.
Fiz o mais que podia, como de resto todos nós. O senhor Gama gostou dos meus números e fui também contratado.
Sem licença de meus pais e com uns 17 anos, fugi para as ilhas com a companhia.
Trabalhamos na terceira e em, S. Jorge e, depois, estacionámos no Faial. Lembro-me que o senhor Gama ganhara em, S. Jorge 400$000 réis, muito dinheiro para aquele tempo. Na viagem, porém, o tempo estava muito mau e caíra-lhe ao mar a saquinha com o dinheiro.
Fui trabalhar para o Faial com a promessa de cama, mesa e uma pataca por dia, mas pouco ou nada me deram.
Na Horta dei-me por muito amigo dum rapaz, José Ventura, filho do dono da casa do correio, e de outro chamado Faria. Já não são deste mundo estes dois bons amigos, que lembro sempre com saudades.
Era afinal amigo de toda a estudantada, que ia para a geral e dava tantas palmas pelos meus trabalhos, que os espanhóis não gostavam de tal simpatia por mim, o artista mais novo e que menos nome tinha.
Isto passava-se no verão e eu andava sempre com uma capinha de borracha.
Um dia o Faria disse-me:
- Ò Azevedo! Que diabo de mania é essa de andares sempre de capa de borracha, mesmo com sol de rachar?
Disse-lhe então que o fato não tinha cara de aparecer, e acrescentei, quase a chorar:
- Desde ontem que não como nada!
Os rapazes comoveram-se e ficaram calados. Dali a bocadinho o José Ventura saiu e trouxe-me uma serrilha. Fiquei contentíssimo. Fomos comer e beber alguma coisa.
Dali para o futuro passaram a dar-me aos vinténs e aos tostões e comecei a ver muito dinheiro, não passando mais fome no Faial, pois não podia contar com o auxílio da companhia, que só dividia os lucros entre os graúdos.
O empresário senhor João Leite da Gama dava o dinheiro ao director da companhia, que nada me entregava.

Uma festa artística na Horta

O senhor Gama confessou-me um dia que já não podia pagar mais aos artistas, pois os espectáculos só lhe tinham dado grande prejuízo. Tive pena do empresário que era muito bom homem e fora explorado. Respondi-lhe, então:
- O senhor dedica o dia da minha festa aos estudantes do liceu e o dinheiro é para si.
As lágrimas vieram-lhe aos olhos.
No dia do espectáculo chovia muito e fui a casa do senhor Gama, que me disse muito triste:
  - Estás vendo, Azevedo, a minha pouca sorte! No dia em que eu julgava que ia fazer alguma coisa, chove assim.
Olhámos para a rua e vimos, então, os estudantes, debaixo de chuva, a passar a casa.
Aquela noite foi uma das mais bonitas da época. A casa, que costumava ter só um terço e um quarto, estava cheia, devendo-se o milagre aos esforços dos estudantes.
Dei corrida dental da galeria ao palco, apesar da partida que me tinham feito os espanhóis, que haviam roubado a verga de aço e o aparelho que tinha para aquela prova, tudo para ver se eu levava pateada.
Não desanimei. Arranjei um cabo e uma argola. Com uma sola de sapato e uns pregos improvisei o aparelho roubado.
Como era natural o trabalho não saiu perfeito, obrigando a algumas paragens, que encheram o público de pânico. Houve alguns desmaios nas senhoras e a plateia ficou sem ninguém… O número, porém, foi realizado.
Quando cheguei cá abaixo e entrei no camarim, encontrei-o enfeitado, com duas mesas com ofertas, tudo preparado pelo José Ventura. Lá encontrei fotografias, dinheiro, peúgas, camisas e um fato.
Por mais que viva não esqueço esta gentileza da população do Horta.
Várias pessoas e até senhoras foram cumprimentar-me e levar-me mais ofertas.
Os da companhia, mordidos de inveja, pegaram em instrumentos de pantomima e foram fazer-me assuada, perto do camarim, quando estava a receber abraços e felicitações de tanta gente.
Os estudantes, furiosos com a partida, foram à loja do senhor Campos e compraram as batatas que havia lá num cesto e numa quartola, e levaram tudo nas algibeiras e em lenços. À maneira que os artistas trabalhavam, atiravam as batatas para o palco.
Os artistas não se desconcertavam e respondiam:
- Atirem, que quem paga é o Azevedo e temos fartura para a semana.

Transformado em prestidigitador…

Havia na companhia um artista que era meu amigo, um russo prestidigitador.
No segundo acto apresentou-se ao público e pediu para eu o acompanhar. Dirigindo-se aos espectadores disse:
-Minhas senhoras e meus senhores. O Azevedo também é prestidigitador, e faz trabalhos magníficos.
Pediu em seguida que lhe emprestassem uma moeda e logo lhe deram uma serrilha. Com um pingo de estearina colou a moeda a meio duma bandeja e perguntou:
- V. Ex querem que o dinheiro aumente ou diminua?
De vários lados da sala gritaram!
- Que aumente! Que aumente;
- Então se é para aumentar, o simpático João Joaquim de Azevedo, o grande prestidigitador, vai fazer com que o dinheiro aumente, com o auxílio de V. Ex
E dizendo isto, passei a correr a sala com a bandeja na mão.
De toda a parte, até dos camarotes, chovia dinheiro, e os que o não tinham chegado a dar, foram levá-lo ao camarim.
Senti-me naquela noite um homem importante e satisfeito por ver que o empresário encontrara, com o produto do espectáculo, com que satisfazer os seus encargos.
Fui depois para as Flores com o russo prestidigitador, e nessa ilha exibimos os nossos números.
Viemos finalmente para S. Miguel e pude matar saudades da minha terra.
Percorremos vilas e aldeias, apresentando os nossos números.
Meus pais perdoaram a minha desobediência e tive, então, o prazer de partilhar com eles os meus lucros.

  II
Nos Estados Unidos

De novo na minha terra, voltei ao ofício de marceneiro, mas a ideia do circo, do atletismo e do público nunca mais me abandonou. Era uma perseguição a que não podia fugir, uma espécie de álcool que não podia dispensar.
Começou a nascer em mim a ânsia de conhecer terras e, ainda não tinha vinte anos, fui daqui para a América do Norte, tendo desembarcado em Boston.
Arranjei trabalho numa fábrica de fazer mesas.

Um acaso providencial

 Um dia chegou à fábrica uma máquina de lixar madeira, de grandes dimensões.
Os italianos que trabalhavam na fábrica estavam lutando com dificuldades para a levar ao seu destino. Era preciso que ela ficasse no seu lugar. Aquilo estava-me incomodando. Voltei-me para eles e perguntei-lhes:
- Vocês podem daí?
- Nós daqui podemos, responderam-me. E daí quem é que há-de pegar?
A minha resposta foi pegar com vontade numa banda da máquina, que por acaso, era a mais pesada, pois tinha o volante. Levantei a máquina sem descansar, enquanto os outros descansaram duas vezes, até que ela fica-se no seu lugar. O dono da fábrica, que assistiu ao trabalho começou a olhar-me e veio apalpar-me os braços, dizendo-me:
- “You are a strong man”!
No fim do dia, quando acabou o trabalho, o dono da fábrica disse ao porteiro para me prevenir que saísse pelo escritório.
Fui lá e encontrei um “língua” que começou a falar comigo.
- Queres ir trabalhar para um teatro? – Perguntou-me.
- Ultimamente a minha vida foi sempre essa, respondi-lhe, satisfeito com a proposta.
O dono da fábrica voltou-se então para min e disse-me:
- Este meu amigo tem uma casa de espectáculos em Boston.
O amigo, que era afinal o “língua”, ou melhor um americano que conhecia o português, pediu-me que experimentasse força de pulso, com ele.
Fiquei a rir e custava-me, na verdade, derruba-lo. Era um amigo do patrão e pessoa simpática.
O homem compreendeu e disse-me com energia:
- Você emprega toda a força, que eu quero ver a força que faz.
Sempre em português, respondi-lhe:
- V. Ex. ainda não conheceu a minha força e eu já conheci a sua.
O homem achou graça ao meu modo de falar e ordenou-me:
- Faça a força toda.
Sempre a rir, levei-lhe a mão abaixo, exclamando, então, ele:
- És um homem valente!
E voltando-se para o seu amigo, o dono da fábrica, disse:
- Lamento, mas vai ficar sem este artista.

As primeiras exibições

Sai da fábrica e recebi lições dum professor de educação física durante três meses. Todos os dias tive de submeter-me ao massagista. Depois, fui trabalhar para um “Five Cents` Show”, um grande teatro cuja entrada custava apenas cinco cents e onde os espectadores podiam permanecer o tempo que quisessem. Todo o dia estava a entrar e sair gente, que rodeava os diversos palcos, ficando todos de pé. O meu lugar era em frente da porta. Exibia vários trabalhos de atletismo. Trabalhei durante uma semana naquele teatro e passei depois para um “Ten Cents` Show”.
Ganhava dez dólares por dia, quando na fábrica recebia dez dólares por semana.
Passei então, para um teatro de “half dollar” ganhando 15 dólares por dia.

Uma nova modalidade da força dental

Duma vez, um “clown” que trabalhava no mesmo teatro, dirigiu-se-me numa linguagem meio aportuguesada, meio “americanada”:
- Se eu arranjasse um bocado de madeira da grossura dessa barra, podia fazer uns intermédios e tu descansavas mais.
Procuramos e encontramos uma tranca numa porta, na qual estava cravado um grande prego. Quisemos arrancar o prego do pedaço de madeira, mas não o conseguimos, nem havia martelo à mão. Enrolei o prego num lenço e consegui parti-lo com os dentes.
O palhaço ficou muito admirado e disse-me:
- Fizeste um trabalho superior à força braçal! Em força dental! Nunca vi nada como isto!
Chegou-se à noite e o “clown” arranjou um prego grande. Pregou-o na tranca tirada da porta e colocou-o sobre duas cadeiras, que estava seguradas por dois homens.
Com facilidade parti o prego com os dentes.
O empresário e todo o público gostaram do meu trabalho.
No outro dia passei a introduzir um número novo no meu reportório. Tinham-me já arranjado um cavalete sobre o qual cravara um prego, que eu partia com facilidade. Em vez de um, partiu dois pregos no dia imediato, e nos dias seguintes fui aumentando o número até que cheguei a quatro, fazendo também a habilidade de arrancar pregos cravados na madeira.

2.500 Dólares por semana!

Fui trabalhar para o Boston Theatre, a principio de graça. Os artistas que fossem mais aplaudidos e que conquistassem a simpatia da empresa, recebiam cinco medalhas, que equivaliam aos cinco prémios a disputar.
Os meus trabalhos de atletismo e de força dental deram-me a 2ª medalha. Como não tinha querido renegar a minha nacionalidade de português, fui contratado para Nova York, pela mesma empresa do Boston Theatre, por 2.500 dólares quando devia ser 3.000. Delicioso “cacau” de que há tanto tempo perdi o sabor!
A primeira medalha coube a um francês, que teve assim o prémio de “primeiro homem do mundo” em força ou agilidade. Aquele artista fazia admiráveis trabalhos de trapézio e barra fixa.
Os 3º, 4º e 5º classificados foram americanos.
Na América havia aperfeiçoado alguns números de atletismo, mas havia outros que continuava a ser novidade e que tinha aprendido em S. Miguel com Picot, um dos melhores artistas de circo que tenho conhecido.
Os atletas de maior fama que trabalhavam nos melhores teatros ou circos da América faziam o “jeter” a um braço ou a dois, o “developper” e o “arracher” levantando os pesos. Eu fazia o que eles faziam e, além disso, o que me ensinara Picot, como trabalhos, sempre aplaudidos, de cintura e de pescoço e outros exercícios como a coluna de Hércules.
Em Nova York, como disse, trabalhava a 2.500 dólares por semana, exibindo-me todas as noites e dando aos domingos uma corrida dental.
Trabalhei também em Washington, Chicago e noutras cidades.
Ganhei muito dinheiro, mas nunca tive jeito para o aferrolhar. Até nisto fui infeliz, porque hoje bastaria uma semana de trabalho em Nova York, para que pudesse garantir uma existência sossegada no resto da minha vida.
Depois contarei como perdi grande parte da minha fortuna.
Nunca soube dar valor ao dinheiro, principalmente quando me contavam uma aflição e a algibeira estava cheia.
Não me arrependo do auxílio que pude prestar a tantos infelizes. Só me recrimino do dinheiro que desperdicei e da boa fé em que caía em “contos do vigário”.
Mas voltemos aos meus trabalhos em Nova York.

Uma prova arriscada

A corrida dental era uma das provas mais arriscadas a que me tenho submetido.
Suspenso pelos dentes, era largado dum prédio de 50 andares, de Nova York, atravessava o rio Hudson e ia parar a Brooklyn. Fazia tudo isto em três minutos, com uma velocidade de raio. O cabo, de grande extensão, estava amarrado a um guindaste em Brooklyn, no cais onde paravam então os navios portugueses.
Concluída a prova, o maior reclamo aos meus trabalhos, seguia então para Nova York, onde me exibia no teatro.
Duma das vezes estava fundeado no cais de Brooklyn o vapor “D. Maria”. Os portugueses fizeram-me uma grande manifestação. O comissário de bordo convidou-me para tomar uma taça de “Champagne”, mas o fiscal da empresa, que me acompanhava para todo o lado, proibiu-me de aceitar a oferta.
Os artistas dos grandes circos, estão sempre sujeitos a uma fiscalização rigorosa, a fim de não prejudicarem as suas aptidões físicas.

III
Um desfecho trágico

Sempre gostei de conviver na América com os portugueses que lá moravam, entre os quais se encontram tantos açorianos e muitos da nossa ilha, com quem matava saudades de S. Miguel
Dei-me com vários ilhéus e patrícios nossos, que encontrava em associações e noutros lugares, guardando desse convívio as melhores recordações.
Foi no Clube Luso-Americano, de East Cambridge, que me iniciei nos segredos da “nobre arte”. Não se compreendia mesmo que, estando na América, a pátria do “box”, não conhecesse aquele popularíssimo desporto.
Sempre gostei de conversar, sendo ainda o cavaco mais apreciado quando se tem a algibeira cheia e nos encontramos nas horas de descanso de trabalho bem renumerado.
Tinham-me pago bem e eu, com os meus poucos anos e os meus músculos, chegava a julgar-me o homem mais rico, mais feliz e mais importante do mundo.
Encontrava-me reunido com alguns amigos no estabelecimento do português Silva, agente de navegação em Brooklyn, onde também estava um preto que não conhecia.
O negro era atrevido e deu-lhe para embirrar comigo. Tenho feitio maçarão, que às vezes me tem prejudicado, mas quando a mostarda me chega ao nariz e percebo que querem fazer pouco de mim, confesso que não sei ser santo.
Falo, é claro, voltando para o passado, porque hoje, infelizmente, a doença e a idade tornam-me bem diferente e dão-me tantas saudades do Azevedo de tempos idos!
Mas voltemos ao preto, que vim a saber que se tratava dum lutador de “box”, todo pimpão, e treinador dos melhores campeões americanos de então.
Não me perturbei quando me deram a informação dos seus dotes de pugilista.
As provocações do preto continuavam e eu não as podia tolerar, não podia ficar de braços cruzados.
Um empregado do senhor Silva observa-me:
- O senhor tem muita força, mas aquele tem mais agilidade, porque é rei dos “boxeurs”.
Respondi-lhe:
- Não me importa. Eu também aprendi, o “box” e, se o farrusco é o rei dos “boxeurs”, eu também sou o rei da força.
O preto mostrando a dentuça, que parecia um plano novo, perguntou-me, sorrindo e com ar superior, se eu era cobarde.
Eu já estava como pólvora e aquilo, dito por um preto, era lume que me pegava.
Protestei logo:
- Cobarde é coisa que nunca existiu em mim!
O preto perguntou então se eu estava disposto a jogar ao “box” com ele. Respondi logo que sim e cortei a conversa, para ela não acabar mal.
A decisão estava tomada.
Fui no dia imediato contratado para, dois dias depois, me defrontar com o preto.
O contrato foi assim: - depois de pagas todas as despesas, 60% era para o vencedor e 40% para o vencido.
Como em Brooklyn havia uma colónia portuguesa muito grande, o caso deu que falar, os jornais ocuparam-se do desafio com grandes letras, à moda da América, chegando até a dizer que eu ia ganhar 100.000 dólares – “batata” que, por ser grande, nem sabia a “cacau”…
Aquilo já não era uma questão de raça. Era mais do que isso. Metia o brio nacional e eu, sucedesse o que sucedesse, devia lutar até vencer.
Os portugueses encorajaram-me enchiam-me de atenções, e no dia do desafio lá estavam todos.
O coração batia-me mais apresado e eu não deixava de medir as responsabilidades. Cheguei a estar nervoso.
No primeiro e segundo “rounds” a vitória foi do preto. Começava a perder confiança em mim mesmo.
Mas quando se entrou no terceiro “round”, ouvi gritar de vários lados:
- Eh! Valente português! Eh! português!
Senti uma alma nova.
E os gritos continuavam:
- O` Azevedo! Eh! Português!
Era Portugal que me chamava e, eu tinha Portugal dentro de mim.
Enchi os pulmões de ar e os músculos retesavam-se. Lancei-me furiosamente ao ataque e aqueci de tal forma que levei o preto duas vezes às cordas. Quase que não distinguia o preto do árbitro. Ambos pulavam diante de mim e pareciam duas sombras, ou dois pesadelos que eu queria afugentar.
- Bravo! Bravo! Anda Azevedo
As palmas e as vozes dos portugueses foram de tal forma que eu cheguei a não saber se estava nesta mundo, se eu era gente ou … o diabo.
O preto ainda teimava em apresentar-se à minha frente e queria reagir. Um directo meu, atirava-o como uma bala, apanhou-o no ouvido esquerdo. O meu adversário baqueou, estendeu-se no “ring” e nunca mais se levantou. Estava morto!
Não me quis convencer, a princípio, do que tinha sucedido. Parei automaticamente, porque me faltava o objecto que tinha de atingir, como se o preto fosse um aparelho de ginástica que deixasse de ter movimento…
Seguiu-se um silêncio e um momento de espanto. Terríveis instantes!
Quando ouvi dizer que o homem estava morto, faltava-me o ar, recuei e sentei-me a um canto. Como descubro, às vezes, em mim, uma alma de criança que não cresceu, comecei a chorar, pois chegara a convencer-me que ia parar à cadeira eléctrica.
Os portugueses, depois do atordoamento do combate e do seu trágico desfecho, rodearam-me e começaram a falar-me. Distingui então o Jacinto Condinho, da Fajã de Cima, com residência em East Cambridge, o sr. Silva e outros. Estas coisas não esquecem e ainda estou a ver o Condinho a gritar-me:
- Ó Azevedo, não chores. Não te sucederá nada e ainda vais receber mais dinheiro!
Na verdade ainda vim a receber além do combinado, mais 20%.

IV
Em demanda da Europa

Aquele acidente fatal com o preto, embora se desse durante uma luta em público e obedecendo ás regras do “box”, era sempre uma sombra a obscurecer a minha felicidade, uma pausa na alegria de viver de que antes andava possuído.
Voltou a invadir-me o desejo de conhecer novas terras, de viajar, embora não resista e seja sempre vencido em viagens pelo mar. Quando o vapor levanta âncora, perco o equilíbrio, desapareço e meto-me no beliche, como menina assustadiça, e só volto a aparecer à chegada a um porto.
Um inglês que se encontrava em Brooklyn perguntou-me se tinha dúvida em ir trabalhar para a Inglaterra.
Informei-me das condições e fechamos contrato, depois de pedir que mo traduzissem duas vezes, para não ser enganado.
Um paquete levou-me para a Inglaterra.
Em Londres trabalhei com uma grande companhia de circo. Exibia na pista trabalhos de atletismo e de força dental. Os ingleses, que tem fama de ser pessoas sisudas e frias, aplaudiam-me com vontade. Ganhava cinco libras por dia e por cada corrida dental davam-me vinte libras.
No meu segundo dia de trabalho iniciou-se um campeonato de atletas, que durou dois dias. Tomei parte no campeonato, composto por sete atletas, lembrando-me ainda que um era inglês, dois eram franceses e um era sueco.
Na primeira noite cada um apresentou os seus números.
Na segunda noite os atletas apresentaram números conforme marcavam as regras do campeonato.
Os pesos foram pesados perante o público. Enquanto os pesos de alguns não correspondiam ao que estava marcado, os meus excediam os exigidos pelo campeonato.
Tinha números diferentes de todos os atletas, mas para se trabalhar no campeonato não serviam os exercícios que tinha aprendido em S. Miguel com Picot, e que, como já disse, constituíam sempre novidade e eram muito aplaudidos em todas as plateias e circos onde me tenho apresentado.
Na segunda noite todos os atletas apareceram na pista e exibiam a seguir os trabalhos do campeonato.
O júri, constituído por três membros, tomava lugar numa mesa.
Sete medalhas estavam prontas com a ordem das classificações, aguardando um gravador o momento de gravar o nome dos classificados.
Quando exibi os meus trabalhos fui muito aplaudido.
Findas as provas, retirámo-nos e só voltámos para tomar conhecimento do resultado das classificações. Ainda me lembro, como se fosse hoje, da grande alegria que tive quando o presidente do júri me colocou no peito a primeira medalha.
Tivemos, então, de nos exibir no palco, mas nessa ocasião já apareci com a bandeira nacional, que nessa data, já bem distante, era a bandeira azul e branca.
Foi nessa altura que souberam que eu era português e as palmas que recebi tomei-as como sendo dirigidas à nossa querida pátria.
Quando se acabou o contrato, fui contratado para França, não tendo tempo de percorrer a Inglaterra.
Muito bem escondido numa mala, levava o dinheiro ganho na América e na Inglaterra. O dinheiro nunca me abandonava, pois eu, que não sabia ler e conhecia pouco o inglês, tinha sempre receio de ser enganado ao querer fazer qualquer transacção para acautelar o elevado produto de tantos espectáculos.
Trabalhei em Paris num grande salão, durante duas semanas, juntamente com outros artistas.
Fui depois contratado para a Bélgica, onde trabalhei durante uma semana.
Depois de dar outras voltas na Europa, fui para a Itália.
Arranjei um dispositivo especial nas minhas malas de couro, com uma armação de madeira e correntes de ferro, que permitia que eu escondesse os pesos com que trabalhava, o que fazia com que tivesse tudo à mão e não causasse transtornos quando chegava a qualquer cidade onde ia trabalhar.
Em cada mala havia, pois, pelo menos, cem quilos de peso.
Um belo dia cheguei a Roma.
Na gare apareceram logo os moços de fretes, muito solícitos como em toda a parte, que logo se prontificam a levar a minha bagagem.
Um deles aproximou-se e eu disse-lhe muito sério:
- Leve as malas ao seu destino.
O homenzinho avançou, agarrou com vontade nas malas, mas elas pareciam coladas ao chão.
Grande espanto do moço e de gente que começou a rodeá-lo.
Os italianos, gente faladora, espalharam logo o caso, que passou a constituir reclamo para os meus trabalhos.
O secretário da empresa, que se apresentara para nos receber, falou aos seus homens para transportarem as milhas malas para o carro que aguardavam a nossa bagagem. A operação foi feita com dificuldade.
Quando chegamos ao teatro, já o empresário tinha sido informado do que se passara e disse-me logo:
- Se é tão bom artista como propagandista dos seus trabalhos, ficarei satisfeito consigo!

V
Sem malas e sem dinheiro!

Durante a minha permanência em Roma, apareceu um espanhol que conhecia o empresário e falava com todos os artistas. O homem interessava-se pelos meus trabalhos, insinuou-me e fez com que eu fosse contratado para a Irlanda.
Fui trabalhando em várias cidades, até que um dia cheguei a Dublin. O espanhol, verdadeiro “rato” de circo, não me abandonava e passava a ser a minha sombra.
Apresentei na capital irlandesa os meus números de atletismo e força dental, que alcançaram inteiro agrado do público.
No último dia da “tournée” foi anunciado um campeonato de luta greco-romana para encerrar a temporada. Era um número de sensação, no qual entravam diversos lutadores.
O empresário perguntou-me se eu também era lutador. Depois de lhe ter respondido afirmativamente, quis então saber se eu estava disposto a entrar no campeonato, ao que eu acedi.
No outro dia lá estava eu entre os lutadores que tinham vindo de várias partes e que ostentavam, orgulhosos, as cores das suas nações. Como julgava que não fizesse qualquer coisa de jeito, não levei o distintivo da minha nação.
Iniciou-se o campeonato com clássica apresentação, dos atletas, anunciando o júri o peso de cada lutador, que lá avançando recebia palmas conforme a simpatia que despertava no público.
Desenrolaram-se as primeiras fases do campeonato. Eu esperava a minha vez, até que as contingências da luta me lançaram na frente de um adversário temível, um francês que espumava de raiva e que, no meio de uivos, tinha derrubado vários lutadores.
O homem atirou-se a mim com tal vontade que, logo nos primeiros assaltos, me deu um golpe de cintura, de turbilhão, às avessas. Ia vendo as estrelas, mas ainda tinha tempo e forças para reagir. Antes que o francês andasse comigo de roda, para me entontecer, consegui agarrar-lhe os pulsos e aplicar-lhe um golpe de luta. Apertei-lhe com mais força os pulsos, até que ele foi obrigado a largar as mãos.
Apliquei toda a atenção e energia na luta. O momento era decisivo. Empreguei o golpe fatal antes que o francês reanimasse, e subjuguei-o. O entusiasmo do público foi enorme. Depois de receber muitas palmas, que parecia não ter fim, retirei-me para aparecer de novo, mas desta vez ostentando ao peito a bandeira azul e branca.
Foi nessa altura que vi um homem atravessar apressadamente por entre o público e dirigir-se à pista. Avançou para mim e deu-me um grande abraço, dizendo-me:
- Cumprimento quem soube honrar Portugal!
Era o nosso cônsul em Dublin, que me confessou a sua grande satisfação pelo resultado do campeonato e disse ter apreciado a minha seriedade, não querendo de começo, ostentar as nossas cores, com receio de compromete-las.
Colocara a medalha que tinha ganho sobre a bandeira nacional.
Naquela noite fomos cear a um dos melhores restaurantes de Dublin. Quem pagou foi o espanhol, que não se cansava de fazer elogios, dizendo que eu ia ter grande sucesso em Espanha.
Conversamos muito naquela noite. O cônsul perguntou-me quando partia e o espanhol, que se fazia um grande, amigo meu e que começava a dispor de mim, respondeu:
- Amanhã às três horas da tarde abandonamos a Irlanda.
No outro dia quem pagou o almoço foi o cônsul português, que após a refeição, foi comprar um alfinete de brilhantes para me oferecer. O espanhol não quis ficar atrás, comprou um anel com um brilhante e ofereceu-me.
Eram tantas as provas de amizade que ele me dava, que eu passei a fazer o que ele destinava, pois considerei-o pessoa muito mais entendida e de mais expediente do que eu.
A viagem parecia não ter fim, até que um dia cheguei a Espanha.
O espanhol dera-me sempre bons conselhos, dizendo-me que eu acautelasse bem o dinheiro na mala, tendo até segurado toda a minha bagagem.
Quando cheguei a Espanha, duma viagem péssima, eu não tinha disposição para despachar malas. Dei todos os documentos ao meu amigo espanhol, que se prontifico para mais aquele serviço, tendo ido descansar para o hotel.
Passou-se um dia e o espanhol não apareceu. Que teria sucedido? Esperei mais um dia e já estava cheio de preocupações com longa ausência do que se fizera tão meu querido amigo e em quem confiara sem reservas.
Fui procurar a autoridade portuguesa. O vice-cônsul avistou-se, comigo, das autoridades espanholas, que começaram as suas investigações. Conseguiram descobrir o bagageiro que se encarregara de dirigir a condução das malas e que indicou o local para onde as mesmas tinham ido. O local indicado era uma pensão e lá disseram que as malas de facto tinham entrado, mas que tinham saído pouco depois. Não conseguiram apurar mais nada,
Passaram mais alguns dias em diligências sem resultados.
Não queria acreditar na grande desgraça que me tinha sucedido.
Poderia lá saber?!
Todo o meu dinheiro ganho na América, na Inglaterra, e noutros países tinha sido roubado dum momento para o outro, assim como toda a minha bagagem, e por um indivíduo que eu chegara a considerar o meu maior amigo.
Nem ao menos me deixaram os meus aparelhos indispensáveis para os meus trabalhos, com os quais poderia continuar a minha carreira.
Triste e desesperada situação.

VI
Depois do triunfo, a negra luta pela vida!

Assim hoje não posso evocar sem um arrepio as horas bem amargas que passei quando tive de conformar-me com a negra realidade da perda de tudo o que possuía.
Todos os meus sonhos, todos os castelos que a minha fantasia tinha erguido, estavam por terra, sem remissão!
È bem duro vermo-nos dum momento para o outro despojados de todo o dinheiro acumulado com tanto sacrifícios com tanto esforço e expondo em tantas ocasiões a própria vida.
Sem dinheiro, sem bagagem e sem os aparelhos com que trabalhava, sentia-me um desconhecido e um inútil em Espanha, país que visitava pela primeira vez.
A minha situação era desesperada e não podia ali recomeçar a minha vida, pois não conhecia ninguém, a não ser o espanhol que desaparecera e que levara todos os meus haveres.
Como podia arranjar dinheiro, se me restavam apenas alguns trocos que tinha na algibeira?!
Os únicos valores que não tinham sido roubados eram o alfinete e o anel de brilhantes, oferecido pelo cônsul de Portugal em Dublin e pelo espanhol, que fora a causa da minha desgraça. Vendi as jóias e arranjei dinheiro para comprar passagem num barco estrangeiro que me levava para o Funchal, tomando ali três dias depois um paquete, também estrangeiro que me devia deixar na minha terra, Devido, porém, ao mau tempo, o paquete não tocou em S. Miguel e fui parar ao Faial, pois o temporal já tinha amainado quando nos aproximámos desta ilha.
Certamente que não ia ali trabalhar de atleta, nem desafiar toda a gente para qualquer luta! O ambiente não era propício para continuar ali a minha carreira. Tinha, pois, de sujeitar-me às circunstâncias e procurar qualquer trabalho, por mais modesto que fosse, para não morrer de fome. Se tinha de trabalhar de qualquer maneira, sentia-me, na verdade, ali mais à vontade do que na minha terra, onde havia quem conhecesse o meu passado de artista e talvez me culpasse do estado a que chegara.
Fui-me hospedar na casa de um micaelense, chamado Rocha, que tinha sido cozinheiro da companhia inglesa do Cabo.

Criado de botequim

O Rocha tinha um botequim e um restaurante, Adivinhado talvez que eu já não possuía dinheiro para pagar a hospedagem, perguntou-me se queria ficar na casa como seu empregado. Dava-me 12.000 réis todos os meses, almoço e jantar e um copo de vinho em cada refeição. Aceitei a proposta e fiquei sendo criado de mesa servindo no botequim. Levantava-me às quatro horas da manhã e, para agradar ao patrão, chegava a fazer de carpinteiro quando era preciso. Num momento troquei os alteres pelos pratos e pelos copos e confesso que, apesar dos alteres chegarem a pesar cem quilos, manejava estes com mais desembaraço.
Logo nos primeiros dias de criado… para todo o serviço, o patrão mandou-me comprar torcidas, Sai, fui a uma loja e comprei seis vinténs de torcida.
Como os candeeiros estavam em ordem, guardei a torcida na gaveta.
Dali a pouco o patrão pediu-me as torcidas, respondendo-lhe eu que estavam na gaveta. Zangou-se comigo e perguntou-me se eu estava mangando com ele.
-Então o senhor onde queria que eu guardasse as torcidas dos candeeiros?! -Inquiri.
O patrão mudou logo de semblante e pegou-se a rir, dizendo-me:
O culpado fui eu, pois agora me lembro que somos da mesma terra e que em S. Miguel “torcidas” são torcidas e aqui são, também … peixe rei… Agora, falando à moda da nossa terra, vais comprar peixe rei… dos grados.

Dois pretos na minha frente…

Um dia o patrão deu-me folga de duas horas. Fui passear e encontrei em frente do Comissariado dois pretos de bordo duma baleeira, que estavam embriagados e provocavam conflitos com toda a gente.
Enquanto na Mouraria se canta que “na vida duma mulher há sempre um homem que passa”, eu podia parafrasear a quadra, dizendo que “na vida dum atleta há sempre um preto que passa”.
Era sina minha. Já em Brooklyn tinha tido um incidente bem trágico com um preto, e agora, em vez de um, apareciam dois pretos na minha frente!
Se há pessoas que têm enguiço quando vêem um gato preto, eu não fico melhor quando vejo um negro a querer fazer pouco dos brancos.
Os pretos da baleeira tinham já espancado vários populares e a polícia não conseguiu levá-los para a esquadra.
Não me contive e exclamei:
- Oh! Louvado seja Deus! Tanta gente aqui e não prende aqueles homens!
- É verdade, responderam-me logo. Tu, que és homem de forças, tens agora ocasião de experimentá-las com esses pretos. Vamos a ver se és capaz de os meter no calabouço!
O público entusiasmou-me de tal maneira que corri para os homens, os quais ficaram a olhar para mim, um pouco espantados com o meu desembaraço.
Não tenho pretensão a… poliglota, mas ainda sabia algumas palavras em inglês, o pouco que aprendera durante a minha permanência na América. Encolerizado, gritei-lhes mais ou menos isto:
- Ou vão já lá para dentro, ou arrebento aqui com vocês!
Não sei se chegaram a perceber as minhas palavras. O que eu sei é que eles temeram a minha cólera e os meus gestos, pois, acto contínuo, sem os deixar pensar no ultimato que lhes tinha dirigido, deitei-lhes as mãos com vontade, dando-se eles por vencidos e levando-os com facilidade para o calabouço.

Polícia em poucas horas…

O caso deu brado e começaram logo a fazer-me elogios. O senhor Miguel António da Silva, que era o homem mais rico do Faial, disse-me:
- O´ Azevedo! Tu é que davas um verdadeiro polícia e vais ser polícia, com certeza.
Juntamente com outros senhores, entusiasmou-me de tal forma que me levaram para o Comissário da Polícia. Falaram no caso com o comissário, até que apareceu um polícia com uma farda. Pediu licença e disse que aquela roupa me serviria na perfeição.
- Vamos lá ver se serve ou não, disseram logo.
Debaixo daquele entusiasmo vesti a farda e senti-me logo autoridade.
Naquela época era coisa fácil ser-se polícia, não sendo precisos concursos, nem ter a gente de concorrer, entre mais de cem, para serem apurados cinco ou seis.
Não tardou muito que fosse fazer serviço para a porta do Comissariado, com a farda e o chanfallho que me tinham dado. Dali a bocadinho chamaram-me e começaram a dizer que o melhor era eu ir fazer guarda para as Angústias. Outros opinavam que devia ir, era para a Conceição.
- Tem que ir é para a Conceição, afirmavam.
Nesse entretanto chegou o senhor visconde Borges da Silva, juntamente com outros senhores, o qual me disse:
- Toma juízo. A polícia não te vai dar nada. Tu no restaurante do Rocha sempre ganhas alguma coisa e não te faltará nada.
Fui lá para dentro e entrei a matutar. Pedi a minha roupa, vesti-a e sai como entrara, indo passear o resto da noite.
No dia seguinte apresentei-me ao serviço do Rocha. Quando sai nos jornais a notícia de que eu era guarda cívico, já eu não era autoridade…
Formaram-se, então, dois partidos e isso aborrecia-me. Ser ou não ser polícia era o problema que se levantava.
Os estudantes, que sempre gostaram de mim, quando souberam que eu tinha sido escolhido para polícia, aproveitaram aquele momento de entusiasmo, fizerem em horas uma subscrição para comprar fazenda para uma farda rica, e quando o corte já estava comprado e no alfaiate, encarregaram-no de me fazer um fato com o mesmo, quando tiverem conhecimento da minha resolução de continuar na casa do Rocha.
Foram depois oferecer-me o fato, que me entregaram no meio de grande satisfação. Quis agradecer a oferta e pedi ao patrão licença para oferecer a cada um dos rapazes um “calzinho”…
Foi o preço por que me ficara o fato, e ainda assim à custa do patrão…
Já tinha saudades de S. Miguel, aumentadas com a vontade que havia de me fazerem polícia à força, e um dia, estava o vapor a partir, preparei as minhas coisas e larguei para a minha terra.

VII
De novo em S. Miguel

A minha permanência na Horta fora um estágio para a minha desventura, depois de ter conhecido tantos momentos de triunfo e de ter amealhado tanto dinheiro, que um espanhol me roubara em instantes.
Conformado com a minha sorte, entrava de novo em S. Miguel, tendo voltado ao ofício de marceneiro. O meu sonho, porém não me abandonava, pois não tardei a abrir um pequeno ginásio, onde arranjara trapézios, argolas e pesos de pedra.
Trabalhei com o mestre Manuel Luís de Almeida, que tinha oficina de carpinteiro. Estive nessa altura trabalhando no pavilhão que se construiu nas portas da cidade para a chegada das Majestades.

Um inesperado combate de “box”

Por conta do mesmo mestre, fui armar os bancos do Colégio Açoreano, do senhor capitão Reis.
Num dia em que o mestre Almeida foi destinar o serviço, eu estava pegando nos ferros das carteiras, quando ele olhou para mim e disse:
- É pena não ires para a América do Norte. Se para lá fosses e educasses a tua força davas um verdadeiro valentão.
Observei-lhe que tinha estado lá ainda há bem pouco tempo e que naquele grande país tinha educado a minha força, assim como também tinha aprendido o “box”.
- Sabes jogar o “box”?! Perguntou-me, muito interessado.
- Sim e obtive vantagens na América como jogador.
- Diz lá que vantagens foram essas.
- Matei em combate um preto, que era mais jogador do que os próprios jogadores.
- Mas tu nunca me contaste isto? Porque é que não me disseste isso quando eu te dizia que havias de ir para a América do Norte?
- O que é que eu ganhava em dizer que tinha lá estado?!
Mestre Manuel Luís de Almeida acabou de determinar o serviço e foi-se embora. Á tarde voltou, trazendo quatro trapos, dois encarnados e dois brancos. Disse-me que era para jogarmos o “box” e que os trapos serviriam de luvas. Observei-lhe que na América não se usava aquilo.
- É para a gente, com os movimentos, diferenciar a mão direita da esquerda, declarou-me.
Começamos a jogar. Eu estava com respeito por ele. Era mais velho do que eu e meu superior. Tive, porém, a infelicidade de lhe dão um soco no olho direito. O mestre Almeida tirou logo os trapos das mãos e não quis mais jogar o “box”.
- És mais sabedor e bruto do que eu esperava! - Declarou-me. O diabo é que o olho vai ficar negro.
Não sucedeu isso, porque lhe dei uma fricção a tempo.
Fizemos um pacto e ninguém soube o que tinha acontecido.
Mestre Manuel Luís de Almeida não me tomou rancor. Ficou sempre meu amigo

Uma prova de força

Um dia chegou ao Colégio Açoreano um grande fogão, que tinha sido dum navio. Era preciso, levá-lo cá de baixo até lá cima, à cozinha. Os seis homens que o deslocaram com dificuldades não conseguiam vantagens, até que lhes perguntei se podiam pegar dum lado do fogão. Como ficassem surpresos, disse-lhes.
- Peguem daí, que daqui há-de haver quem pegue.
E os seis dum lado e eu sozinho do outro levamos o fogão ao destino.
O capitão Reis, que vira a proeza, mandou dar-me um quartinho de vinho e entregou-me meia “pataca”, fazendo o elogio da minha força, e dizendo aos outros:
- Vocês agora vêem beber e receber o dinheiro e não apanham nada. Não têm vergonha?! Seis contra um!

O meu ginásio

Instalara o meu ginásio num granel na Rua do Brum, nº 44, pagando 7$000 réis por mês. Tinha lá barra fixa, trapézio, argolas, escadas, pesos etc, não faltando também as minhas ferramentas de trabalho.
Fiz muita mobília para o Bazar do Sr. Cândido Xavier, que foi sempre muito bom para mim e me deu muito trabalho.
Um dia, meus pais foram procurar o Sr. Xavier e convenceram-no a vir com eles até à minha oficina, para fazer com que eu acabasse com o ginásio, que, segundo eles, só me prejudicava.
O Sr. Xavier começou a dar-me conselhos, enquanto minha mãe aproveitou o tempo para tirar dos seus lugares os aparelhos do ginásio.
Empreguei tão boas falas na minha defesa, que, por fim, todos se convenciam de que o ginásio não prejudicava a minha vida e, pelo contrário, era um estímulo.
E passamos todos os quatro a por os aparelhos nos seus lugares.

Aventuras dum emigrante clandestino

Fui convencendo meus pais que poderia ter um grande futuro no estrangeiro, até que se resolveram a pedir auxílio ao senhor José Horácio, encarregado das descargas de carvão do senhor Laurênio Tavares.
Foi-me preparado a fuga, a mim e a Manuel Lima, filho do grande cornetim Lima, da banda de Rabo de Peixe.
Escondemo-nos num vapor espanhol e lá nos entregamos ao nosso destino. Tinha uma saca com pão que o senhor José Horácio me tinha entregue, quando já me encontrava no meu esconderijo. Levava ainda uma libra de oiro para o que fosse preciso.
Ficamos para ali, não sei quanto tempo, como se nos tivessem fechado num jazigo. Tudo negro, nem uma nesga de luz entrava!
Matutámos, não sei quantas horas, enquanto ouvíamos o matraquear das máquinas. Que horas seriam? Já devíamos estar ali há muito tempo. Naturalmente já não se avistava terra.
Não resistimos à curiosidade de saber a que alturas estavámos. Com mil cautelas, abrimos uma porta e divisámos na nossa frente, com surpresa, a costa da Vila Franca. Afinal o vapor tinha ainda andado muito pouco!
Um tripulante dera por nós e fora logo dar parte ao comandante, que mandou rodar o navio e rumar para um sítio que devia ser as proximidades da Caloura.
O comandante zangou-se muito connosco e mandou-nos descer por uma escada de corda para um barco que já nos esperava no mar.
Os tripulantes fizeram grande assuada de nós e, quando descíamos a escada, atiravam-nos pedras de carvão.
Deixaram-nos num penhasco, que nós, a princípio, julgávamos que era qualquer ponto da ilha. Quando demos que estávamos rodeados de mar por todos os lados, ficámos aflitos, pois escurecia e receamos que não dessem por nós. Umas mulheres que estavam em terra descobriram-nos e, dentro em pouco, um barquinho aproximou-se do penhasco e, com muita dificuldade, lá nos levaram para terra.
Quando cheguei a Água de Pau quis gratificar os meus salvadores, mas não tinha mais dinheiro do que a libra de oiro. Quis trocá-la em vários estabelecimentos, mas todos diziam que eu queria enganá-los com 5 réis novos!
Até que cheguei à loja do senhor António Inácio Vieira, que me trocou o dinheiro. Gratifiquei então os homens e bebemos todos, um copinho de vinho.
Largámos a pé para a cidade, aonde chegámos a altas horas da noite.
Quando bati à porta da minha casa, minha mãe, que estava a rezar por mim, não queria acreditar no que tinha sucedido, mas ficou contente por me ver de novo.

VIII
A tentação da América

Tinha-se logrado a minha fuga para o estrangeiro, mas a ideia de sair da ilha era uma ideia fixa que não me deixava.
Continuei a trabalhar no meu ofício e dei ainda alguns espectáculos em vários pontos de São Miguel.
Comprei uma passagem para a América, e um belo dia abandonei a terra, a bordo do “D. Maria”. A viagem foi bastante atribulada, pois o mar estava bastante agitado, obrigando o vapor a gastar muito mais tempo no percurso. O “D. Maria” teve de desviar a rota para fugir ao temporal, não conseguindo, no entanto, escapar aos seus efeitos.
O vapor foi parar, finalmente a Boston, depois de termos passado momentos muito críticos.
O comandante, à vista de terra, confessou que, se o “D. Maria” se demorasse mais tempo, não tinha nem carvão para as máquinas, nem subsistências para os passageiros.
O mar revolto tinha varrido o convés, mostrando o “D. Maria” os prejuízos do mau tempo.
Ao chegarmos a Boston, os açoreanos fizeram-nos uma grande manifestação, pois já temiam pela nossa sorte. A minha irmã Maria da Glória, que se encontrava naquela cidade, acompanhara outros açoreanos na visita a bordo. Ao saber que eu vinha naquela viagem, sofreu uma grande emoção e desmaiou. O senhor Avelar, agente em Boston da companhia de navegação, falou a um carro e fomos para casa.
Minha irmã pediu-me que largasse a vida de atletismo e que me ia arranjar trabalho. Por intermédio dum primo nosso, fui trabalhar para uma fábrica de pianos em East Cambridge. O meu serviço era aparelhar e armar pianos. A princípio não tinha prática, mas depois consegui ganhar 20 a 30 dólares por semana.
Entrei numa festa de portugueses, tendo tomado parte num drama. Fazia o papel de criado, mas não era uma rábula vulgar. Tinha de falar com todos, mantendo-me, portanto, muito tempo em cena. Minha irmã lia-me o papel e ensinava-me a destacar as palavras.
O ensaiador da peça era o barbeiro Frank Sardinha, natural de Rabo de Peixe. Os outros componentes da peça pertenciam às outras ilhas do arquipélago dos Açores.
Demos vários espectáculos, exibindo-me eu no fim da representação em atletismo, para chamar a atenção dos americanos, dando a corrida dental da maior altura da casa de espectáculos, até ao palco.

Cupido em acção…

Não julguem que o coração do atleta é rijo como os seus músculos. Puro engano! Como qualquer homem, o atleta esta sujeito a simpatizar com uma mulher, ou mesmo a apaixonar-se por ela.
Vou contar-lhes a minha primeira história de amor, hoje mais conhecida por “flirt”.
Num verão em que tinha chovido muito, seguia numa rua, quando seis italianos pararam no passeio e não me queriam deixar passar, provocando-me. Os portugueses que assistiram aos insultos instigaram-me. Dirigi-me ao mais forte e dei-lhe uns socos, caindo ele e ferindo-se. Os outros puseram-se em fuga, esconderam-me numa casa, para me livrar da polícia, que já vinha indagar do sucedido. Fiquei conhecendo nessa casa uma rapariga encantadora, filha de um irlandês e duma portuguesa.
Apesar de ter ficado com um dedo fracturado na luta, as dores passaram-me quando a rapariga me prestou os primeiros socorros. Levaram-me depois a um hospital, onde me fizeram o tratamento necessário.
Dali por diante fui recebido com muito carinho na casa do irlandês, que andava muito satisfeito comigo, pois não me esquecia de lhe levar um charuto todas as vezes que os visitava.
Fui passear com a minha namorada e ofereci-lhe um chapéu. O namoro ia de vento em popa, pois ganhava bem e não me faltava dinheiro para fazer figura.
Comprei uma bicicleta e fui passear para diante da casa da rapariga. Chamei-a, toquei a buzina, fui recebido com grandes manifestações de alegria, evolucionei na rua e pedalei com força, mas com tanta infelicidade que o asfalto estava molhado e dei um grande trambolhão, deveras espectaculoso. Ainda hoje me lembro da “linda” figura que fiz…
Um faialense propôs-me que desse um espectáculo com o seu grupo teatral, apresentado eu os meus melhores números. Em troca oferecia-me um automóvel, que, na verdade, já tinha razoável uso.
O homem vendo que a casa se tinha passado, não só me entregou o automóvel prometido, mas ainda me deu algum dinheiro.
A minha namorada assistiu ao espectáculo e no outro dia pediu-me que déssemos um passeio no meu automóvel.
Via-me dum momento para o outro proprietário dum automóvel, o que é coisa fácil na América, não sabendo, no entanto, guia-lo, o que é mais raro. O irmão da rapariga prestou-se a conduzi-lo e demos passeios em três dias seguidos. Ao terceiro dia quis aprender a guiar o automóvel e pus as mãos no guiador. O rapaz lá ia dando instruções, mas não, conseguiu, pouco tempo depois, segurar o guiador e… o automóvel projectou-se com força contra um poste.
Sofremos algumas escoriações, tendo-se ferido na testa a minha namorada, que ficou muito mal disposta comigo. Foi o primeiro amuo que tivemos, que mais se agravava quando mais vontade tinha eu de rir.
Ficamos na estrada, com o automóvel em lastimável estado. Passou por fim um “chauffeur”, que esteve a ver os estragos e nos disse:
- O melhor é largarem isto aí e porem-se a fugir para não pagar as despesas. O carro não vale nada.
Na verdade, o velho carro que me tinham dado, já de saúde bastante abalada, era pouco mais do que… sucata.
Seguimos o conselho do “chauffeur” que tinha passado e abandonamos o automóvel, tomando depois um carro eléctrico. A rapariga levou toda a viagem amuada, até que a deixei em casa.
Foi essa a nuvem mais densa que obscureceu aquele idílio nascente, que… por ali ficou.
Depois… para mim veio o tempo das “vacas magras”, o desemprego, as dificuldades, como contarei oportunamente.
Como a minha namorada não era partidária da teoria do “amor e uma cabana” e como eu nem cabana tinha, morreu aquele idílio, que começara com tanto entusiasmo.

IX
Novos episódios da minha segunda estada na América

Um dia chegou a East Cambridge meu irmão Virgínio. Não se adaptou ao meio, pois julgava que ia viver em conjunto com a família.
Alguns meses depois paguei-lhe a passagem para regressar a S. Miguel. Na véspera da partida fomos a Boston para ele se despedir da nossa irmã, que estava empregada num grande hotel daquela cidade.
Deram-nos, então, a triste notícia de que minha irmã tinha fracturado uma perna e encontrava-se num hospital. Não conseguimos vê-la naquele dia e meu irmão teve de partir sem se despedir dela, apesar dos esforços feitos no hospital pelo picoense senhor Manuel de Andrade, o português mais influente daquele tempo em Boston.
Passei todos os dias a visitar minha irmã, e, como faltasse às vezes à fábrica, despediram-me.
Antes de me suceder este percalço estivera numa aula de ginástica, onde continuava a cultivar os meus conhecimentos de educação física com professores competentes.
Com o desemprego experimentei então dias bem amargos. O dono da casa onde estava fecho-me a porta e tive de dormir ao relento, juntamente com outro micaelense sem sorte como eu.
Três dias depois um conterrâneo meu, natural da freguesia de S. Pedro, desta cidade, que exercia a profissão de barbeiro e se encontrava à muito na América, perguntou-me o que se passava. Contei-lhe tudo e ele, que conhecia as leis de inquilinato do estado, instigou-me a meter a porta dentro, a fim de ir buscar as minhas coisas. Não foi preciso empregar muita força, porque a porta cedeu e lá me dirigiu para o meu quarto. Um picoense, que morava perto, convidou-me para ir para a sua casa.
Estava esfomeado, e o barbeiro que me aconselhou a proeza, levou-me para um restaurante, onde me deu de comer, tendo-me entregue 20 dólares, a título de empréstimo…
No entanto minha irmã tinha melhorado e foi convalescer para East Cambridge, voltando depois para o hotel onde trabalhava.
Consegui, finalmente, trabalho numa grande fábrica de móveis. Tinha a meu cargo lixar secretárias que eram construídas em série. Alguns dos meus companheiros de trabalho trocavam os móveis que eu tinha dado por pronto, aparecendo com mais trabalho. A princípio não dei pela “batota”, mas um dia o José Rocha, irmão de Manuel Rocha, com oficina de marceneiro na rua de Água, deu conta ao dono do que estavam a fazer-me e, entregou-me um lápis, disse para eu marcar no fundo as gavetas das secretárias, descobrindo-se assim a partida de que eu estava a ser vítima.
Devido ao José Rocha, fiquei a ganhar mais dois dólares por semana.
Mais tarde aborreci-me daquele serviço e, aceitando o convite de Joaquim Viviano Cabeceiras, que foi dos primeiros amadores de atletismo em S. Miguel, fui trabalhar com ele para a cidade de Chelsea, próximo de Boston. Empreguei-me na fábrica onde ele trabalhava, tendo-me sempre dado bem com ele, até que chegou um dia em que se despediu de mim, por ter resolvido ir tentar a sorte para S. Francisco da Califórnia.
Dei-me bem em Chelsea, cujos edifícios eram todos construídos em madeira.
Num domingo resolvi dar um passeio a East Cambridge, em bicicleta. Quando regressei a Chelsea a cidade estava a arder.
A origem do incêndio tinha sido fogo posto num armazém de trapos. As chamas passaram facilmente a uma fábrica de papel de alcatrão, comunicando-se depois o incêndio às casas de madeira.
A cidade ardeu durante quatro horas e meia. Parecia o fim do mundo. A população conseguiu escapar à tragédia, mas numerosos bombeiros ficaram muito feridos.
Mais uma vez perdia todos os meus haveres e ferramentas. O fogo consumira tudo em instantes.
Fui parar ao hotel de Boston, onde trabalhava a minha irmã. O dono, que se mostrara sempre meu amigo, compadeceu-se da minha situação e convidou-me a ficar lá até arranjar emprego, prestando eu, em troca, alguns serviços.
Combinei com vários amigos que tinham bicicletas a irmos assistir às festas do Senhor Santo Cristo em Fall River. A caminhada era muito longa, mas revolvemos tentá-la. Éramos 10 bicicletas. Naquele tempo sentia-me com forças de me bater com o Faísca ou com o Lourenço…
Às quatro horas da manhã partimos de East Cambridge. Chegamos a 10 léguas de Boston e os meus companheiros já estavam esmorecidos e quiseram desistir. Resolvi, então fazer sozinho a viagem a Fall River. A cidade estava em festa e, quando lá cheguei, fui recebido com satisfação por vários conterrâneos.
Assistiu à saída da procissão e iniciei na tarde daquele dia o meu regresso, ficando de voltar a Fall River três dias depois.

X
Ciclista e atleta

Teimara em regressar a East Cambridge no próprio dia da minha partida para Fall River. Largara, portanto daquela cidade, palas 16 hora, depois de me ter despedido dos meus amigos, que me quiseram dissuadir de tão dura prova.
Sempre a pedalar atravessei campos sem fim. Cheguei a esmorecer, mas alcancei Falls City, onde entrei num estabelecimento para comer alguma coisa. Retomei, em seguida a viagem e verifiquei, pouco depois, que já não podia mover a perna direita. Não desanimei e passei a servir-me da perna esquerda, tendo o cuidado de amarrar o pé ao pedal.
Cheguei a Boston pela noite dentro, tendo procurado minha irmã, a quem comuniquei que ia ficar em East Cambridge, na casa donde partiu o grupo de ciclistas, de que eu havia sido o único que não desistira. Quando lá cheguei, não queriam acreditar que tivesse vindo de bicicleta e, só depois das informações que lhe dei, é que se convenceram de tal.
Três dias depois voltei a Fall River, como prometera, mas desta vez de comboio, pois não estava disposto a repetir tão violenta prova ciclista. Fui muito bem recebido naquela cidade pelos meus amigos. Nesse mesmo dia à noite visitei uma cervejaria portuguesa. A certa altura o agradável cavaco que encetara com alguns patrícios foi interrompido pela chegada dum português, visivelmente magoado, devido a ter sido agredido por irlandeses embriagados. Soube então que dera a esses irlandeses para provocar os portugueses e correr com eles das cervejarias.
Indignado com tal insolência, levantei-me e declarei:
- Sempre quer ver se eles são capazes de correr comigo!
Mandei vir um cálice duma bebida forte e preparei-me para ir ao encontro dos provocadores.
Um nosso conterrâneo, que estava presente, conhecido pelo José da Relva, levantou-se também e exclamou decidido:
- Eu vou contigo.
Mais ninguém se resolveu a partir. Dirigimo-nos à cervejaria onde sabíamos que se encontrava os irlandeses. Quando lá chegamos, em vez de pedir em inglês, pedi em português duas cervejas. Os irlandeses voltaram-se logo para mim e, com aspecto ameaçador, perguntaram:
- Are you portuguese?
Compreendi a atitude pouco pacífica dos meus interlocutores e achei desnecessário gastar palavras. Não tinha que esperar mais. Atirei-me a eles com vontade. Foi tão grande a barafunda e a… pancadaria, que o José da Relva achou prudente pôr-se a distância. Depois dos meus contendores estarem caídos e desistirem da continuação da luta, é que ele apareceu para me puxar pelo braço e dizer-me:
- Vamo-nos embora, que o serviço está bem feito.
Contaram-me depois que os irlandeses, passado o temporal, haviam confessado que os portugueses não davam tempo para despir o casaco.
Voltei para a cervejaria donde partira para desafrontar os portugueses que tinham sido molestados pelos irlandeses. Esperava-me lá uma grande recepção, tendo-me todos, pedido que ficasse em Fall River, pelo menos, uma semana. Terminada a semana despedi-me e, quando ia pagar a hospedagem, disseram-me que já estava tudo pago.
Em Boston arranjei trabalho de atletismo. No primeiro dia exibi-me nove vezes, tendo chegado a trabalhar mais de 10 horas.
Numa das exibições, o “regisseur” entrou na pista e anunciou que ia fazer a Coluna de Hércules. Convidou um espectador para vir à pista, preferindo um patrício meu. Apareceu um homem moreno, de estatura meã, bem vestido e desembaraçado, que perguntou logo donde eu era.
Respondi-lhe que era de S. Miguel, tendo ele exclamado logo:
- Ah! De S. Miguel! A minha terra! O senhor com certeza que já ouviu falar de mim. Sou o soldadinho que fugiu com o Baptista. Prometeu-me mundos e fundos pela liberdade que lhe facilitara, mas nunca me deu nada.
Os trabalhos no circo eram muito violentos, devido às várias exibições que tinha que fazer cada dia, tendo desistido de continuar ali.
Minha irmã não sabia que eu voltara ao atletismo. Quando foi informada de tal, lamentou que eu não tivesse cumprido o que prometera.
Confessei-lhe então que queria voltar para S. Miguel, que estava desgostoso e desiludido.
Preparei as coisas para regressar e realmente pouco depois tomava novamente o rumo da minha terra. Nessa altura procurei o Dr. Monteiro, que era cônsul de Portugal em Boston e pessoa muito simpático. Na mesma ocasião apareceram dois portugueses, tendo um deles pedido ao cônsul para lhe vender um remédio que ele tinha para fazer crescer o cabelo, e que lhe diziam ser muito bom.
Havia só dois frascos e a compra estava quase feita, quando o companheiro do homem que estava disposto a experimentar o remédio disse:
- Arruma o teu dinheiro. Não vês que o senhor Dr. está brincando. Se o remédio fosse realmente muito bom o senhor Dr. não estava assim…
Na verdade o Dr. Monteiro era muito calvo, e quando os homens se retiraram observou-me, a sorrir:
- Por não ter o boné, perdi dez dólares!

XI
Nova temporada em S. Miguel

Cheguei à ilha de S. Miguel, com alguns dólares. Voltei a falar ao senhor Cândido Xavier, que me deu trabalho para o seu bazar.
Montei um clube na rua do Gaspar, onde, nas horas vagas me dedicara à educação física. Preparei a inauguração solene do clube, com a estreia do drama “O Escravo”, representado por amadores e ensaiado por José Maria de Carvalho. Alguns amadores que tomaram parte no espectáculo: - Carlos Pacheco, tipógrafo, Pedro de Viveiros, Óscar Armindo de Azevedo, que fazia a carácter o papel de mulher, Urbano dos Reis. Houve números de trapézio e barra fixa. O senhor Francisco Soares Silva pintara o pano de boca. A orquestra era dirigida pelo professor Vítor de Almeida.
A casa encheu-se e o espectáculo agradou, mas o êxito foi motivo de discórdia e, desgostoso, vendi o clube ao grupo por… 12$000 réis.
Fui para a casa da rua do Conde, onde houve o primeiro teatro. Estava ali instalada a maçonaria, que naquele momento passava toda a tralha e guarda-roupa para a rua dos Mercadores. Deram-me a chave para ver a casa e ainda encontrei lá várias espadas, capacetes e fatos, que pareciam do Carnaval.
Havia um quarto todo de negro para as grandes reuniões da maçonaria, que naquele tempo tinha farta e selecta concorrência.
Após a mudança, entregaram-me a chave da casa e passei a instalar o meu ginásio, começando a armar um palco ao fundo da sala. Convidei o senhor Mata do correio para ensaiador de um novo grupo de amadores que arranjara.
Tinham-me facilitado a mudança para ali, mas o dono da casa não estava pelos ajustes e convidou-me a sair. Não havia argumentos nem falas doces que o convencessem. Apesar da promessa de seis meses de renda adiantada, nada consegui e tive de abandonar a casa.
Desgostoso, não participei nada ao grupo, tendo comunicado a Henrique Maria da Costa Vasconcelos que ia partir naquela noite na canhoeira “Açor” para o Faial.
Nesse mesmo dia procurara-me no novo clube da rua do Conde – um clube de existência bem curta, o senhor João Leite da Gama, que sabia do propósito do senhorio em despedir-me, mas que não tinha conhecimento de que já havia abandonado aquela casa. Bateu com insistência à porta chamou por mim, até que apareceu Henrique Maria da Costa Vasconcelos, a quem comunicou as suas apreensões, julgando até que eu me tivesse suicidado.
Foi, então, quando este lhe disse que eu já ia a caminho do Faial.
Na mesma viagem seguiram o jornalista Raposo de Oliveira e o faialense Nico Baptista.  
A canhoneira apanhou forte temporal, levando muito tempo a aportar ao Faial e chegando até alguns marinheiros a implorar a clemência de Deus. Dias depois encontrei na horta dois desses marinheiros, que estavam num estabelecimento, proferindo blasfémias e dizendo que Deus não existia. Não me contive e exclamei logo:
- Então agora, com um copo na mão e encostados ao balcão, não existe Deus! Quando os vi pedir misericórdia a Deus, nessa altura Deus existe, não é verdade?!
Ficaram calados e os assistentes aplaudiram a minha atitude quando souberam o que se tinha passado.
Assisti no teatro do Faial à representação da “Ceia dos Cardiais”, por Raposo de Oliveira, Baptista e Pato Moniz.
No meu regresso a S. Miguel, Raposo de Oliveira, alma sempre generosa, pagou a minha passagem.
Na nossa ilha, Afonso de Vasconcelos tinha uma casa de bicicletas, de que eu fiquei empregado. Ainda muitos se lembram de ver aquele bom amigo “rebocar” com a sua moto a minha bicicleta, e eu não posso esquecer um acidente que me ia custando bem caro.
Numa noite em que havia marinheiros americanos em terra, fechei a casa das bicicletas, quando soube que no Café do Tavares tinha havido grande zaragata. Os marinheiros tinham bebido e partido coisas e não queriam pagar nada.
Realizada a “obra”, foram-se sentar nas escadas da Matriz. A pedido do senhor Tavares, convenci-os com bons modos a que viessem pagar a despesa feita e os estragos. Queriam mandar vir mais bebidas, mas convenci-os a sair:
No outro dia, estava no meu serviço de bicicletas, quando o senhor Tavares me mandou chamar, perto da noite. Os americanos tinham voltado e estavam dispostos a repetir a cena da véspera, tendo já partido uma mesa. Entrei e intimei-os a sair. Os homens recalcitraram e eu observei-lhes que, se não saíssem a bem, teria de usar da força. Um marinheiro de baixa estatura avançou para mim. Cumpri o prometido e lancei-o à rua. Levei-o na minha frente e, depois de vários socos aplicados a tempo, consegui que se dirigissem ao cais para seguirem para bordo.

XII
Nova viagem e novas aventuras

Em fins de Dezembro de 1908 chegou à nossa ilha a Companhia de opera, comédia e revista de Ernesto do Vale, a qual tanto se havia de celebrizar pela representação da revista “Ou vai… ou racha”, que tivera mais de 200 representações em Lisboa e que, entre nós, exaltara de tal forma a política local, dando origem ao dramático e pitoresco incidente da “Menina Rosa”, em que foram envolvidos os estudantes do Liceu e tão boa gente da nossa terra.
A revista só foi estreada no dia 6 de Fevereiro de 1909, repetindo-se numerosas vezes, até que teve de ser proibida, tais os conflitos, aplausos e pateadas que provocou, dividindo-se o público nitidamente em partidos políticos e tomando posição de combate.
Lembro-me até que uma noite, depois da proibição, o actor Casimiro Tristão veio à boca de cena e anunciou:
- Teríamos muito gosto de levar, conforme anunciámos, a “Grã – Duquesa de Geroistein”, mas como houve um pequeno incêndio que queimou parte do guarda-roupa desta opereta, só o que pode ir é uma outra qualquer peça. Por exemplo… a revista “ Ou vai… ou… racha” Oh! Perdão!...
E o artista fez um gesto de se ter enganado. O público, porém, reclamou logo:
- A revista “Ou vai… ou… racha”.
E teve de ser representada mais uma vez.

***

Dei-me com os artistas da companhia, principalmente com o actor Ernesto do Vale Filho. Exibi vários trabalhos de força dental e braçal no acto de variedades da sua festa artística, como já fizera com a festa da actriz Maria Dolores.
Com a ideia de ir até Lisboa que ainda não conhecia, arranjei passagem gratuita para o Funchal, para onde voltara a Companhia. Levei comigo algum dinheiro que conseguira juntar.
Chegamos ao Funchal, fomos almoçar à leitaria do senhor José de Sousa, na rua João Tavira. O Ernesto do Vale convidou-me a experimentar forças, o que causou excelente impressão entre os presentes. Fiquei hospedado na casa do senhor José de Sousa.
No dia seguinte exibiu-se a Companhia no Teatro Funchalense, mas, como já era conhecido o seu repertório, os espectáculos foram pouco concorridos.
Depois de alguns dias de permanência no Funchal, o velho Vale mandou-me chamar, convidando-me a tomar parte num acto de variedades, para ver se os espectáculos eram mais concorridos. Respondi-lhe que não tinha aparelhos próprios para os meus trabalhos, mas constava-me que o senhor João Augusto Fernandes possuía aparelhos que serviam para esses trabalhos.
O actor Vale falou com senhor José de Sousa, que se comprometeu a falar ao senhor Fernandes, dizendo:
- Vou-lhe arranjar os pesos, mas é com uma condição: - a da Companhia dar um benefício na minha casa, a favor do Azevedo.
O empresário aceitou a condição e no dia seguinte trabalhei no Funchalense o melhor que pude em atletismo e força dental.
No outro dia, estava distraído a ver a vitrina dum estabelecimento, quando um sujeito, chamado Martins, instigado por um tal Pina, me deu um soco à queima-roupa, gritando:
- Faça o seu jogo!
Corri atrás dele, mas o homem, que tinha boas pernas deu às de Vila Diogo e nunca mais o apanhai. Foi um estranho credor, com quem nunca cheguei a liquidar o meu débito.
No domingo seguinte dei a minha festa no picadeiro do senhor José de Sousa, apresentado um acto de variedades os actores da Companhia. Fiz uma bela receita.
A Companhia passou a dar os seus benefícios no referido picadeiro, porque as despesas eram mínimas e o lugar era abrigado e muito espaçoso.
Preparamo-nos para seguir para Lisboa e ainda estou para saber como perdi nessa ocasião as minhas malas e tudo o que possuía. Era sina minha, pois não era a primeira vez que aquilo me sucedia.
- Lisboa à vista!
 Este grito fez-me esquecer tudo, o negro futuro que me esperava. Saltei do beliche e fui contemplar a entrada da barra e o lindo panorama da cidade. Fiquei encantado com tudo o que via e com que há tanto tempo vinha sonhando. Tinha já percorrido a América e vários países da Europa, mas ainda não conhecia a linda capital – Lisboa, tão gabada por todos os que a visitam.

XIII
Expectativa e… desilusões

Mal tive tempo de ver Lisboa, porque a Companhia seguiu logo para Setúbal.
Tendo desaparecido misteriosamente as minhas malas, um só recurso me restava: - receber o dinheiro que havia emprestado, ao artista da Companhia com quem mais me dera. O meu pedido foi julgado como impertinência e deu lugar a um conflito que formalizou o velho Vale e me desligou por completo, da Companhia.
No entanto não perdi a amizade de alguns artistas. Confiado novamente à minha pouca sorte, atravessava as ruas de Setúbal, acompanhado de Horácio Campos, o 1º tenor da Companhia, quando este, batendo-me nas costas, indicou-me um cavalheiro, perguntando-me:
- Não conheces este senhor?
Reparei melhor na pessoa indicada, um cavalheiro bem parecido que se me dirigiu, inquirindo:
- Olhe bem para mim. Então há-de dizer-me que não me conhece?!
Era o Dr. Malheiros, da ilha das Flores, cirurgião dentista em Setúbal, que casara com uma senhora muito formosa, daquela cidade.
Quando reconheci aquele bom amigo, pedi licença para o abraçar e fiquei deveras comovido.
Lembrei-me então que durante a minha primeira “tournée” às Flores, o Dr. Malheiros, ia a todos os espectáculos e pedira para eu ir à vila das Lajes com o russo prestidigitador.
O Horácio Campos contou a minha triste situação e logo o Dr. Malheiros, uma alma cheia de bondade, declarou:
- Isso é o menos. Não lhe vai faltar nada durante o tempo que estiver em Setúbal.
Na verdade, não pude encontrar mais generoso protector, que compreendendo a minha situação aflita, pagara a hospedagem, evitando assim que eu passasse fome.
Dei um espectáculo no Casino da Piteira, tendo-me oferecido o comandante dos bombeiros uns alteres.
A empresa de Ernesto do Vale rebentou e os artistas pediram-me para eu trabalhar na festa deles. Fui trabalhar em benefício da Companhia a casa esgotou a lotação.
Um dia deram-me, de chofre, uma notícia que me enchera de profundo desgosto e que ainda hoje recordo com grande pesar. O Dr. Malheiros, tinha morrido. Num instantes perdera um grande amigo.
Trabalhei como carpinteiro ao serviço da Câmara de Setúbal. Nessa altura tinha arranjado um namoro à antiga, na própria casa onde estava hospedado.
Havia muito de ingenuidade e de timidez no meu namoro. Nunca soube bem quem se declarou primeiro…
Do que me lembro é que a rapariga era bondosa e resignada e chegou a acreditar que eu voltaria quando lhe disse que ia para Lisboa com o propósito de melhorar de vida, tanto mais que o serviço da Câmara tinha já acabado.

***
O dinheiro que levara comigo gastou-se depressa. Alguns dias após a minha estada em Lisboa, procurei trabalho, mas não o consegui. Ninguém me conhecia.
Um dia estava cheio de fome, sentado num banco do Rossio (nesse tempo ainda o Rossio tinha bancos) e matutando no meu infortúnio, quando vi uma criança com uma lata vazia, batendo na mesma com uma moeda de cinco tostões.
A fome sugeriu-me um estratagema deveras habilidoso, embora pouco edificante.
Chamei a criança, meti conversa com ela e, pegando na moeda de prata, marquei-a a lápis com uma pequena cruz. Entreguei-lhe novamente a moeda e segui a criança a uma certa distância.
A criança, pouco depois, entrava para uma leitaria, pagando com a moeda o leite que comprara.
Entrei logo a seguir na leitaria e mandei vir um copo com leite e um bolo. Pedi depois o troco. O dono, muito surpreendido, observa:
- O senhor ainda não pagou e quer o troco?!
Enchi-me de brio… protestei e disse que já lhe tinha entregue uma moeda de cinco tostões. O homem não acreditou, e, para lhe provar o que afirmava, disse que, por sinal, essa moeda tinha uma pequena cruz marcada a lápis.
- Se a moeda lá estiver, respondeu-me, o senhor não só receberá o dinheiro como ainda lhe darei outro copo com leite e um bolo.
Foi à gaveta e lá encontrou a moeda, que me entregou, pedindo-me desculpa e dando-me mais um copo de leite e o bolo prometidos…
Cinco tostões naquele tempo davam para muito e, como até ali só tinha enganado uma fome de dois dias, felizes dos que não sabem o que é isto!
Fui comer a uma taberna “meia desfeita” com grão.

XIV
A travessia do Tejo, suspenso pelos dentes

As coisas foram de mal a pior. Ao fim de dois dias, já não tinha onde dormir e não encontrava ninguém conhecido que me auxiliasse.
Estava sentado num banco do Rossio, meio abstracto, meio absorto em pensamentos sombrios, quando passaram dois cavalheiros. Um deles voltou-se e disse para o outro:
- Ali está quem procuras!
Quem dissera aquela frase era um amigo do empresário Segurado, que o acompanhava. Dirigiram-se os dois para mim e começaram a fazer-me perguntas. O empresário Segurado, que naquele momento tinha tido sérios prejuízos com dois artistas que o haviam enganado, quis saber minuciosamente quais eram os meus trabalhos, interessando-se muito pela força dental. Perguntou-me onde estava hospedado. Respondi-lhe, não ocultando um amargo sorriso:
- No hotel das estrelas…
Quando soube da minha miséria, comoveu-se e levou-me a um estabelecimento, onde fiz, para ele me conhecer, várias exibições de força dental. Ficou entusiasmado com os meus trabalhos e encarregou o genro de me arranjar uma casa com pensão num terceiro andar da Travessa de S. Domingos, a 8$000 reis por mês.
No outro dia fui ter com ele, às dez horas da manhã. Mandou-me ao Grandela com um empregado, para comprar um fato e roupas, a fim de aparecer “encadernado” de novo.
Com o meu fato novo e todo escanhoado, apareci ao empresário Segurado, que passou a fazer grandes reclamos. Mandou-me às redacções dos jornais, acompanhado do seu secretário e de um homem com um pedaço de madeira, pregos e um martelo. Aparecia nas redacções quando lá se encontrava o maior número de jornalistas. Com a maior facilidade parti pregos de grandes dimensões, com os dentes, o que assombrava os jornalistas, que escreviam nos jornais noticias a meu respeito cheias de entusiasmo.
Houve um jornal que combateu os meus trabalhos, por simpatizar com o empresário da Praça do Campo Pequeno e ser o Segurado empresário da Praça de Algés.
Após uma intensa propaganda, o senhor Segurado arranjou uma comissão que pediu às autoridades licença para eu fazer uma corrida dental sobre o Tejo. Foi obtida a licença, com a condição de, na travessia, não passar sobre prédios.
Subimos para uma tipóia e fomos escolher o melhor local para a partida. Escolhi o torreão da Bolsa, no Terreiro do Paço, encetando-se logo as necessárias diligências para ser autorizada superiormente a amarração dum cabo ao referido torreão.
No sábado á noite, daquela semana, já estava tudo preparado, com a colaboração dos bombeiros e da companhia dos eléctricos, que cedeu o cabo para a travessia.
No domingo, três técnicos vistoriaram o local, tendo levantado várias dificuldades que o empresário Segurado removeu.
O cabo partia da platibanda do torreão da Bolsa, indo amarrar à bóia nº 8, próximo de Cacilhas.
Depois de tudo preparado, na manhã da corrida, estava no torreão da Bolsa, com o senhor Segurado, quando este se voltou para mim, exclamando, apreensivo:
- Ó Azevedo! Tu não dás a corrida!
Não disse nada e fui para casa.
Estive a examinar uma roldana que tinha comprado para a travessia, oleando-a convenientemente. Quando olhei para o relógio já era tarde. Fui a fugir para o Arsenal, onde estava um rebocador pronto a partir. O secretário da empresa, admirado com a minha demora, já estava desanimado, assim como os jornalistas que o acompanhavam.
O Terreiro do Paço e todas as varandas e janelas dos edifícios em volta estavam repletos de gente.
Saltei para dentro do rebocador “Azinheiro”, que nos levou para o cais da Alfândega, onde entreguei a roldana, pedindo que a colocassem no cabo e a largassem com um saco com o meu peso, quando fizesse sinal com uma bandeira.
O rebocador levou-me para a bóia nº 8. Dei o sinal. A roldana deslizou com o saco, vindo parar ao local onde nos encontrávamos.
Ao chegar a terra, a polícia teve de formar um cordão em minha volta, para que me pudesse dirigir ao edifício da Bolsa, pois a multidão não me deixava passar, tal o interesse que tinha em ver-me.
Um dos chefes dos bombeiros estava amarrado à platibanda do torreão, para o caso de ser necessário qualquer auxílio. Para salvar a responsabilidade do empresário, declarei que estava tudo em condições, apesar das deficiências que encontrei. Encarreguei José Ildefonso Pinto Ribeiro de segurar a roldana. Quando fizesse sinal, abandonaria a mesma e eu seguiria o meu destino. Fixei bem os dentes ao couro da roldana e dei sinal de partida. Durante o trajecto fiz vários movimentos ginásticos, para provar que ia livre e apenas suspenso pelos dentes. No termo da travessia aguardava-me o “Azinheiro”, que me trouxe para terra perante enormes aclamações da multidão.
Ainda a bordo, tirara-me dezenas de fotografias e no dia seguinte os jornais vinham cheios de gravuras sobre a travessia. Ao chegar ao Terreiro do Paço, todo o povo me queria ver e aplaudir e foi preciso que um destacamento de polícia, comandado pelo chefe Simões, me protegesse até minha casa, sendo durante o percurso muito vitoriado pela multidão. Ao chegar a casa, ainda tive de aparecer à varanda para agradecer as manifestações tão entusiásticas da população de Lisboa, que tanto me comoveu e que ainda hoje recordo com saudade e emoção. Foi para mim uma verdadeira tarde de glória, com a circunstância muito especial de se ter passado na capital da minha pátria.
Era já noite quando o secretário da empresa me levou de carro à rua da Prata, onde morava o senhor Segurado, que ao ver-me entrar, deu-me um abraço e disse:
- Estou hoje muito contente, como se me saísse a Sorte Grande. És, na verdade, um artista que pode competir com os melhores do género.
Ofereceram-me um jantar num restaurante, ao qual assistiram vários jornalistas e amigos do empresário.
Estava assim feita a melhor propaganda do meu nome para os futuros trabalhos por conta daquele empresário.

XV
Uma temporada em Lisboa

Durante uma semana o empresário Segurado fez grande propaganda dos meus trabalhos nos jornais por meio de cartazes e de programas, que, entre outras coisas, diziam isto:
“Além da corrida dental que vai dar da maior altura da praça de touros. O Hércules João Joaquim de Azevedo vai também apresentar trabalhos prodígios em força dental e braçal”.
Estreei-me na praça de touros de Algés, durante uma corrida de garraios, apresentando-se nessa festa sete bandas de música.
Fiz a travessia, trabalhei de atletismo e força dental, sendo muito aplaudido.
Ao terminar a festa, o empresário Segurado entregou-me uma boa quantia, ficando eu a trabalhar todos os domingos em força dental e braçal.
O empresário procurava sempre números novos, pois o público apreciava os meus trabalhos.
Um número de sensação foi anunciado para o dia 1º de Maio. Nesse dia levantei um coreto com uma banda que executava o hino do 1º de Maio.
Fiz também o trabalho das Escadas Romanas, número de cartaz, no qual segurava o peso de oito homens, estando eu ainda deitado sobre uma tábua cravada de pregos.
Apresentei ainda outro número, que era sempre muito aplaudido. De curvas, num trapézio, sustinha pelos dentes uma moto com o motociclista e a trabalhar a toda a força.
Os jornais fizeram grande reclamo dos meus números, chamando-me o “homem de ferro”.

***

Filipe da Costa, moço de força e atleta, teve um pequeno conflito comigo.
O empresário Segurado tomara conhecimento do incidente e perguntou-me se eu teria alguma dúvida em ter um combate de “box”, ou de luta greco-romana, com o Filipe da Costa. Aceitei com satisfação a proposta, mas observei-lhe que tinha de treinar-me, pois, desde que saíra da América, nunca mais jogara o “box” em público.
Mário Ribeiro treinou o Filipe da Costa e instigou-o a desafiar-me.
Iniciei os meus treinos, sob a direcção de Cláudio de Oliveira, empregado na Companhia das Águas. Um trabalhador dos caminhos recebeu dez tostões por dia, durante um mês para me dar socos…
O encontro ficou marcado para determinado dia, encarregando-se o empresário Segurado de fazer grande propaganda do mesmo nos jornais.
Chegou-se ao dia do encontro e a Praça de Algés encheu-se por completo.
Antes do combate, convidei um moço de forcado a bater-me nos músculos dos braços com um varão de ferro até dobrá-lo.
O homem, que estava de má fé, batia com a ponta do ferro, quando devia ser com a parte central do varão. Protestei e dei conta ao público do que se passava. O homem foi logo substituído por outro, que fez o que devia fazer, vergando então o ferro. A seguir ainda levantei com um dedo mínimo um peso de 60 quilos, acima da cabeça.
Seguiu-se então a luta. O juiz foi Mário Ribeiro, que mostrava, a todo o momento, o seu parcialismo, favorecendo o meu adversário. Todavia, a certa altura da luta, atirei um directo ao Filipe da Costa, que o apanhou em cheio, fazendo-o saltar as cordas e indo cair ao outro lado.
O Mário Ribeiro contou o tempo, demorando-se muito e dizendo.
- 1… Levanta-te Filipe da Costa! (em tom mais baixo) 2… Levanta-te Filipe da Costa! (item) …
Aquilo irritou-me a ponto de não me conter e de atirar um soco ao árbitro, prostrando-o. Ardeu Tróia… alguns espectadores avançaram para mim, brandindo bengalas. Enquanto não veio a Guarda Municipal, fui-os castigando.
A Guarda chegou, por fim, e estava preparada para me acompanhar até á rua. Foi nessa altura que o senhor José de Mascarenhas, num gesto de verdadeiro fidalgo, e os seus filhos, me convidaram para seguir no seu carro, levando-me para o seu palácio. Um polícia quis acompanhar-nos. D. José protestou, dizendo que não era necessário auxílio da autoridade.
Quando o trem começou a rodar, a multidão que estava em volta rompeu com aplausos.
Durante três meses permaneci no palácio de D. José de Mascarenhas, em Benfica, dando lições de ginástica aos seus filhos.

XVI
Voltando à Espanha

Abri um ginásio na rua dos Fanqueiros, onde tinha aula de ginástica.
Um dia, o Eduardo Custódio, que contratava artistas para Espanha, apresentou-me uma proposta tentadora para Bilbao. Aceitei-a, pois, apesar do percalço que me tinha sucedido em Espanha depois duma magnífica “tournée” na Europa, tinha vontade de conhecer o país vizinho. Sobretudo, encantava-me a perspectiva duma nova viagem.
Depois duma longa viagem de comboio, cheguei numa tarde à estação de Bilbao, onde me aguardava o empresário. Só então soube que, no mesmo comboio, vinham mais artistas para o mesmo empresário.
Pouco mais duma hora depois, já me apresentava no circo em trabalhos de atletismo.
Havia mais seis atletas: - dois franceses, um italiano, um americano e dois espanhóis.
Nos primeiros espectáculos era eu o primeiro atleta que se apresentava. Como, porém, o empresário gostasse dos meus trabalhos, passou-me para o fim.
Para que o espectáculo não terminasse mais cedo do que a hora marcada, um dia o empresário pediu-me para prolongar os meus números, a fim de suprir a falta dum artista que tinha despedido. Apresentei alguns números novos. O “regisseur”, que não sabia da combinação e que não simpatizava comigo, veio logo dizer-me que não podia trabalhar mais, porque já tinha ultrapassado o tempo que me era destinado. O empresário fez-lhe, então, sinal para que ele se retirasse.
Fui nessa noite muito aplaudido.
Quando voltei para o camarim, o empresário aguardava-me, abraçando-me e dizendo-me que me considerasse contratado de novo, para entrar com outros artistas que tinha contratado. Passei a apresentar números novos, sendo nessa altura que comecei a arrancar pregos com os dentes, quando antes só os partia.
Por cada corrida dental no circo, número sempre anunciado com grande reclamo, o empresário pagava-me 1.000 pesetas. Devido à sensação que despertava aquele número, o empresário convidou-me a fazer a corrida dental na praça de touros. Aceitei, com a condição de receber mais dinheiro. O empresário ofereceu-me então 10.000 pesetas pela corrida. Devo lembrar que a peseta naquela época estava muito desvalorizada.
O cabo de aço para a corrida foi amarrado à torre duma igreja, vindo terminar na arena. Preparei tudo, tendo recomendado que, só depois de me fazerem sinal para abrir a boca, quando me encontrasse no término da corrida, é que os atletas me deviam segurar, pois já nessa altura me encontraria suspenso dum ferro de roldana. Os atletas, porém, que estavam de má fé, seguraram-me antes do tempo, sucedendo que os dentes da frente sofrerem um forte embate, ocasionando uma hemorragia. O público não ficou bem impressionado, pois gostaria que tudo tivesse decorrido sem incidente.
Levaram-me ao hospital, mas lá deram-me água para bochechar, o que me surpreendeu bastante. Em casa fiz um tratamento com tintura de iodo, que me dispôs melhor.
Naquela noite tive de trabalhar no circo, surpreendendo-se o público de me ver partir e arrancar pregos, como se nada me tivesse sucedido naquela tarde. Ignoravam, porém, que aqueles trabalhos eram feitos com os dentes molares.

***

Quando terminei o novo contrato, convidaram-me para ir trabalhar em Madrid.
No dia em que me dispunha a descansar, findo o meu contrato em Bilbao, fui a um café daquela cidade e pedi uma cerveja para mim e outra para o português Manuel dos Santos, que era então o meu secretário.
A minha entrada foi notada por um grupo de espanhóis de aspecto pouco simpático, que arranjaram uma mesa próxima da minha. Os homens falavam alto e percebi logo que tinham o propósito de me desconsiderar e de desconsiderar Portugal. O Manuel Santos aconselhou-me a sair. Respondi-lhe:
- Fazemos de conta que não sabemos do que se trata.
Julgando que eu não estava a perceber o que se passava, um deles, que tinha uma pequena bandeira portuguesa, tomou com os outros uma atitude provocadora.
Como o meu secretário aumentasse os seus receios e dissesse que ia embora, disse-lhe:
- Não! Um português nunca deve fraquejar em parte alguma!
Por fim disse ao Santos que se fosse embora, acentuando, então:
- Sozinho é que eu me sinto bem
O Santos conhecia Bilbao, e sem meu conhecimento, tomou a iniciativa de ir procurar o cônsul português e conter-lhe o que se passava.
Os espanhóis aumentaram as provocações que chegaram ao auge quando rasgaram a bandeira.
Os assistentes olharam para mim com curiosidade. Perdi, então o controle dos nervos, levantei-me como impelido por oculta mola, peguei no copo quase cheio de cerveja e atirei-o para cima da mesa deles. Agarrei numa cadeira e o que fiz com ela não sei. Só sei que mesas e espelhos ficaram partidos e havia gente estirada no chão quando chegou o cônsul com a polícia. Abracei a chorar esse velho, de barbas brancas e respeitáveis, cuja figura bondosa e digna não esqueci.
Fui para casa do cônsul, acompanhado da polícia. Depois de refeitos da surpresa, ainda alguns arruaceiros aproximaram-se do consulado para me provocar, mas a polícia dispersou-os.
O cônsul comunicou para Portugal o que se passara. Os jornais deram a notícia na “Ultima hora”, realçando o que fizera para honrar o nome de Portugal.
Com a maior dedicação, o cônsul preparou tudo para que eu viesse para Portugal, de comboio, tomando precauções para evitar a repetição de qualquer incidente.
Os jornais portugueses falaram muito no caso e anunciaram o meu regresso. Ao passar nas estações portuguesas, era aclamado por numeroso público, comovendo-me aquelas manifestações tão espontâneas de bons portugueses.
O empresário Segurado, sabedor do que se passara, enviara ao meu encontro o seu secretário, que me convidou a abandonar o comboio antes de chegar a Lisboa, para só entrar na capital no domingo seguinte, depois do reclamo feito nos jornais, anunciando a minha apresentação na praça de Algés. Não conheci outro empresário como o Segurado, para saber aproveitar as ocasiões…
Na minha chegada a Lisboa fui vitoriado como um triunfador. Conduziram-me de automóvel para a praça de Algés, que se encheu por completo. Ao aparecer em público, atiraram-me com flores e chapéus e quase não me deixaram trabalhar.
Lembro-me bem que esse dia não só foi rendoso para o empresário e para mim, mas também para os chapeleiros, pois houve espectadores que nunca chegaram a encontrar os seus chapéus, sem que isso os tivesse arreliado…

XVII
Percorrendo novas terras

Trouxe de Espanha a carteira bem recheada; mas era sina minha, o dinheiro não coalhava na algibeira.
Um dia fui ao Suíço, o meu café predilecto. Deu-se lá uma desordem em que me vi envolvido e, quando os ânimos serenaram, a carteira tinha desaparecido da algibeira.
Dias depois fui trabalhar para a Figueira da Foz. No Parque Cine. Dei uma corrida dental da maior altura da casa de espectáculos.
Foi também anunciada a suspensão duma “moto” com o condutor, a trabalhar, mas desta vez fui vítima duma partida dum individuo chamado Luciano, o operador do cinema, que arranjou uma “moto” com as malas carregadas de chumbo e montada pelo individuo mais corpulento da Figueira, conhecido pelo Manuel do Café. Apesar de tudo, conservando-me de curvas num trapézio, fiz a suspensão da “moto” e do condutor, mas, quando bati palmas para que a suspendessem, depois de feita a prova, não fizeram caso. Quando abri a boca para largar o couro onde prendia o cabo, sucedeu-me o mesmo que me tinha sucedido na praça de touros de Bilbao, ficando bastante molestado nos dentes da frente.
Ainda dei a corrida dental e segurei quatro homens pelos dentes. A prova entusiasmou o empresário, que me deu um relógio e mais 20$000 reis.

***
Depois de vários espectáculos na figueira, vim para Lisboa e reabri o meu ginásio da rua da Palma.
Algum tempo depois, fui contratado, com mais um grupo de lutadores e de artistas de variedades, para Montemor-o-Novo.
Devido à má interpretação dum telegrama, pelo empresário, que se encontrava em Lisboa, partimos oito dias mais cedo, aguardando nós naquela vila que terminassem as obras que se estavam realizando no teatro. Este engano deu em resultado aumentar os encargos do empresário com o nosso sustento.
Demos vários espectáculos, nos quais conquistei a simpatia do público. Num deles, um lutador, conhecido pelo apelido de “Escanganhado”, portou-se mal com o público, tendo, com a sua atitude condenável, “escanganhado” o espectáculo. O caso deu lugar a protestos, tendo eu de anunciar que o empresário já tinha despedido o artista. Acompanhei depois o “Escanganhado” ao hotel, para o proteger da ira do público.
Nesse espectáculo anunciei ainda que daria no próximo espectáculo a minha festa artística, apresentado, além de números de atletismo e de força dental, alguns números de prestidigitação, pedindo desculpas para a modéstia destes últimos trabalhos, que não eram a minha especialidade.
A casa encheu-se e nesse dia, depois de agradecer o bom acolhimento do público, anunciei que a festa era para o dia seguinte, pois o produto daquela destinava-se a auxiliar o empresário, em vista da permanência de mais oito dias dos artistas naquela vila, sem trabalharem. O público achou graça ao meu expediente e não faltou também no dia seguinte.
Lembro-me que do grupo faziam parte os lutadores Filipe Costa, Luís Leite, Jaime de Melo e Mota Gomes e os cançonetistas Carlos Coutinho, Aníbal Monção e Carlos Silva.
Carlos Leão, que era um bom barrista, fazia às vezes de lutador e um dia deu-lhe para desafiar todo o público para luta greco-romana. Apareceram os mais fortes da terra e conseguiram prostra-lo, sem, no entanto, seguirem as regras da luta.
Não me contive e fui em auxílio de Carlos Leão, explicando ao público o que eram as regras da luta greco-romana e dizendo que, depois de elas serem respeitadas, o Carlos Leão não podia ser vencido. Convidei depois a que lutassem a valer, mas ninguém mais apareceu…

***

Fomos depois trabalhar para Faro, onde se encontrava uma companhia de circo ambulante, com artistas espanhóis.
Embora o nosso empresário chegasse a recear que a companhia espanhola nos prejudicaria, o primeiro espectáculo teve grande concorrência e agradou deveras. Eu era o único atleta da companhia, pois os outros desempenhavam o papel de lutadores, trapezistas, ou barristas.
No dia seguinte ao primeiro espectáculo fui a um café como o meu empresário, que ofereceu qualquer bebida ao atleta da companhia espanhola.
O espanhol era fanfarrão e, começou a fazer gala de força, dizendo que não temia ninguém. A discussão foi acalorando e o homem chegou a dizer que pegava na cabeça de qualquer português e que esmagaria debaixo de qualquer dos seus braços. Eu tinha-me posto de parte e fazia-me desentendido, mas não conseguiu conter-me mais. Aproximei-me dele e perguntei-lhe:
- Você é capaz de dizer isso mais uma vez?!
- Ó! Isso não é com “usted”.
- Não. Isso é comigo. Se você não tem honra em ser espanhol, tenho eu muita honra em ser português!
O homem continuava com uma atitude provocadora, a qual teve pronta a resposta. Dei-lhe um muro, que a cadeira onde ele estava sentado quebrou---se. Levantei-o e levei-o até à parede. O homem não reagiu, com a rapidez da minha resposta, mas levantou-se tal burburinho no café que ninguém se entendia. Leopoldo Alves, que pertence hoje á Polícia de Emigração, deu-me com uma garrafa na cabeça, quando pretendia atingir o atleta espanhol. Fiquei atordoado e comecei a distribuir murros a torto e a direito. Chegou a polícia, mas eu não obedecia, até que um cavalheiro de certa idade, pessoa respeitável que conhecera no clube que frequentava, aconselhou-me a que tivesse prudência. Foi quando cai em mim, pedindo desculpa dos meus excessos.
O atleta desaparecera, esperando eu que ele quisesse desforra.
No dia seguinte encontrei-o e esperei o desafio, aproximando-me dele, mas o homem desapareceu e escondeu-se num estabelecimento.
Um dia depois, o circo espanhol foi desarmado e nunca mais apareceu em Faro o atleta que desafiava a terra e a lua…

XVIII
Novas “tournées”

No fim da nossa “tournée” em Faro resolvemos ir a Olhão e dar nesta vila um espectáculo. Desconhecíamos, porém, que lá se encontrava uma companhia de teatro. Não achámos oportuno a ocasião para dar um espectáculo, tendo eu convencido o empresário a que regressássemos a Faro e anunciássemos um espectáculo de despedida.
Um homem que se aproximara de nós e cuja identidade desconhecíamos, mas que se via procurar ser pessoa da nossa intimidade, ofereceu o seu carro para transportar a nossa bagagem. Já tínhamos palmilhado uma boa extensão de caminho, quando o empresário mandou parar para tomarmos qualquer coisa numa pequena taberna que estava à beira da estrada. Ali encontrei uma pessoa conhecida em Faro que me preveniu que o condutor do carro não inspirava confiança e que bem podia estar combinado com gatunos para nos assaltarem na estrada. Discretamente dei conhecimento ao empresário da prevenção e todos resolvemos amarrar num lenço os nossos haveres, escondendo tudo no fundo do carro, sem que o condutor desse por isso.
Usei, em seguida, dum pequeno truque, precisamente para iludir o condutor do carro. Combinei com a pessoa que me fizera a prevenção que aceitasse uma determinada importância que lhe entregara e que me emprestasse um dos seus anéis, que coloquei num dedo.
Pouco depois, aproximando-me do tal indivíduo suspeito, pedi, alto de forma, a que ele ouvisse, ao amigo que encontrara, que me emprestasse tal quantia, (a mesma que lhe havia entregue antes) dando-lhe em troca, como penhor, o anel. Assim foi feito e, continuando a falar alto, disse tanto eu como o empresário e os outros artistas, tínhamos deixado o dinheiro em Faro, estando portanto desprevenidos. Só levamos connosco os aparelhos para os nossos trabalhos, que seguiam no carro.
O meu amigo compreendeu logo o meu fito e não foi difícil o desapontamento que se adivinhava no rosto do indivíduo que, certamente, nos preparava uma cilada.
Era já tarde quando continuámos a caminhada até Faro. Passado algum tempo, um homem surge na estrada, cumprimenta com grandes efusões o condutor do carro e percebemos que eles se afastavam de nós para falar à vontade. Adivinhei o que o condutor lhe deveria ter dito, que não tínhamos vintém! O homem desapareceu e dai, a algum tempo ouvimos um assobio à distância. Pouco depois apareceram de alguns pontos da estrada vários vultos que estavam embuçados e aguardavam o momento de assaltar o viajante desprevenido. Isto já foi a umas boas dezenas de anos e hoje, felizmente, as coisas mudaram.
Quando chegámos a Faro, tirámos os nossos haveres do fundo do carro, com grande surpresa do condutor, a quem demos uma rija reprimenda, procurando o homem dizer que nada tinha planeado…
Na capital do Algarve demos um espectáculo de despedida, que foi muito concorrido.

***

Em Lisboa voltei a abrir o meu ginásio.
Trabalhavam no Coliseu, com grande êxito, lutadores internacionais. Nesta coisa há sempre combinações para se tirar o maior efeito. Ás vezes os lutadores pegavam-se a fingir, ao abandonar a pista, e eu e o Manuel Grilo éramos contratados para os apartar… O público delirava de emoção e de entusiasmo e no dia seguinte os jornais anunciavam um desafio entre os lutadores que se tinham provocado na véspera. Entre os lutadores há sempre os mais antipáticos e que se prestam a este papel, ganhando por isso mais dinheiro. O mais antipático do grupo era um alemão, de grandes bigodes, que arrostava a ira do público, que chegava a atirar-lhe com bengaladas. O homem, na intimidade, era, porém, uma excelente pessoa.

***
Fui trabalhar para Viseu e combinei com o lutador Jaime de Melo que o chamaria no caso de ser bem sucedido nos meus trabalhos, em “fim de festa”, depois da exibição de filmes. Tinha, porem, combinado com ele, um truque de efeito. Fazíamos de conta que não nos conhecíamos e o Jaime de Melo aparecia na cidade e provocava-me, marcando-se um combate de luta greco-romana. Depois de o mandar chamar, pois conseguira despertar o maior interesse no público, o Jaime de Melo desempenhou-se admiravelmente do seu papel, sem que ninguém adivinhasse que se tratava de combinação. Começou por toda a parte, a falar mal de mim, dizendo que eu, nas suas mãos, não era nada. Correu veloz o que ele dizia, aceitando eu logo o desafio. Anunciou-se o combate. A casa foi pequena para o público que desejava assistir à luta. Depois de várias fases da mesma, disse, baixinho, ao Jaime de Melo, que eu ia fazer de vencido. Daí a pouco o meu adversário “prostrava-me”, com grande surpresa de todos.
Começaram a formar-se partidários do Melo, tendo eu anunciado para o dia seguinte a minha desforra. Outra enchente, mas desta vez venci, como não podia deixar de ser. O Jaime de Melo declarou depois que queria ter outro encontro, ficando marcado para o outro dia com nova enchente e nova derrota daquele.
Dias depois apareceu-me no mercado o Melo, que começou a provocar-me com grandes gestos e alarido, juntando em sua volta muitos curiosos. Apesar de saber que aquilo tudo era teatro, foi a custo que aparentei serenidade, aceitando um novo combate, o 4º tão ou mais rendoso do que os outros, em que sai também vencedor…

***
Regressei a Lisboa com um bom pecúlio, que deu para pagar velhas dívidas e ainda cresceu.
Algum tempo depois, soube do falecimento de minha mãe, resolvendo voltar a S. Miguel.

XIX
Trabalhando nas ilhas

Apôs o meu regresso de Lisboa, voltei a procurar o bazar do senhor Cândido Xavier, que me dava sempre trabalho durante a minha permanência em São Miguel.
Nas horas vagas e aos domingos dedicava-me ao atletismo.
Constituiu-se então uma comissão encarregada de promover uma festa em benefício do Asilo de Infância Desvalida. Constituíam essa comissão os senhores César de Oliveira, Hermano Feijó, Amaral do Chiado, e outros cavalheiros. Fui convidado por essa comissão para tomar parte no festival, que se devia realizar no Relvão.
Tratando-se de uma festa de caridade, aceitei o convite de bom agrado, e exibi na mesma trabalhos de atletismo e força dental, anunciando ainda um
número de efeito: suspenso pelos dentes e de curvas num trapézio, levantar uma motocicleta a trabalhar e com o motociclista. Este número, sempre acolhido com entusiasmo no continente, despertou também viva sensação.
O último número dos trabalhos de força dental constava em partir e arrancar pregos. Como de costume, convidei uma pessoa do público para pregar um prego. Chegou um operário e pregou um prego mais fundo do que o costume. Começaram a protestar, por julgarem o operário de má fé, mas logo a seguir preguei ao lado daquele outro de igual forma, partindo os dois, ao mesmo tempo, com os dentes. Em seguida preguei três pregos e parti-os também com facilidade. Por fim preguei pregos na tábua principal do cavalete e despreguei-os, sendo em todos os números vivamente aplaudido pelo público.
Tinha convidado para segurarem o cavalete os senhores Hermano Feijó, Henrique de Vasconcelos, João Silva e Manuel Augusto de Chaves.
Num dos momentos mais animados do arraial, estava eu sentado a uma mesa, com os senhores Hermano Feijó, João Silva, cabo Ferreira e outras pessoas, quando apareceram dois indivíduos a provocar distúrbios e um deles a rasgar os balões à veneziana com uma bengala. Adverti este que não fizesse aquilo, respondendo-me que me daria com a bengala. Corri para esse indivíduo, conhecido pelo seu feitio provocador, e todos se admiraram e riram quando o viram fugir com tal velocidade que o não consegui apanhar.

***

Aos domingos percorria alguns pontos da ilha, dando espectáculos.
Algum tempo depois fui para a Terceira. No Teatro Angrense estavam trabalhando as irmãs Pombos. Precisava de uma casa para dar os meus espectáculos. Havia na rua do Galo a Sociedade Popular. Graças ao seu presidente, o senhor Viriato Rodrigues, pai do aplaudido amador teatral senhor Gualter Rodrigues, consegui trabalhar ali, tomando também ele parte num acto de variedades. Lembro-me que um dos seus números – “O sempre sentado” – arrancava vivos aplausos ao público.
Exibi-me em força dental e braçal e em trabalhos de prestidigitação.
Tinha ensinado luta greco-romana ao senhor Azevedo, da fazenda. Um dia combinámos ter um desafio em público. Como era natural, a Sociedade Popular encheu-se. Todos queriam ver a luta dos dois Azevedos…
Começaram as primeiras fases com pouco interesse e, depois, comecei a dar-lhe algumas reviravoltas. Foi, então, quando o senhor Azevedo começou a querer desistir, dizendo-me baixo:
- Acaba com isso, Azevedo! Eu já não posso mais!
Fingi-me desentendido, até que ele, voltando-se para o público, exclamou:
- Eu já não posso mais! Quem não acredita, que venha lutar com esta fera!...
Risota geral.
O senhor Rodrigues grande proprietário, da Ribeirinha, dirigiu-se ao palco e disse:
- Eu vou lutar com ele!
Mas quando se aproximou de mim, deu-me um grande abraço e começou a rir.
Realizei quatro espectáculos na Sociedade Popular.
Deu-me depois a sua valiosa cooperação o senhor Miguel Forjaz, presidente da Fanfarra. Era regente da mesma, um micaelense, músico reformado, que tinha o apelido de “Pão de Milho”.
O senhor Miguel Forjaz, com o seu grupo dramático, juntou-se a mim e fomos trabalhar para o Teatro. O senhor Viriato Rodrigues também tomou parte nos espectáculos.
A renda do Teatro era apenas de 20$000 réis e recebia ainda 2$000 réis do bufete!
Dei depois espectáculos na Vila da Praia, com o mesmo grupo. De lá fui para a Graciosa e depois para o Faial.

XX
Nova temporada no Faial

De novo na Horta, dei lições de luta greco-romana, apresentando no Salão Éden dois discípulos, um dos quais é o actual Dr. João Goulart. Trabalhei em atletismo e força dental, tendo agradado os espectáculos.
Algum tempo depois um sujeito de Castelo Branco procurou-me e propôs-me para eu ir trabalhar naquela freguesia.
- Damos-lhes 100$000 réis. Se a receita for maior, receberá o excesso. Se for menor, receberá sempre os 100$000 réis.
Aceitei a proposta e tive de dar novo espectáculo no mesmo dia, trazendo de Castelo Branco 230$000 réis.
Fui depois trabalhar para a Feteira, nas mesmas condições. Além da gente da freguesia, foram ao espectáculo muitas pessoas da cidade. Sustive uma junta de bois. Era o número de sensação que tinha sido anunciado. Soube depois que o condutor e os homens que acompanhavam os bois estavam de má fé, picando o gado com navalhas. Vários amigos meus estavam dispostos a cortar a corda.
O gado não se moveu, apesar de tudo.
Depois de informado do que se passava, agradeci ao público os aplausos com que me tinha distinguido, fazendo referência irónica aos indivíduos que me tinham tratado daquela forma.
A comissão do espectáculo ofereceu-me, três dias depois, um jantar, convidando-me a levar os meus amigos.
O Cardadeira, dos Flamengos, convidou-me também para trabalhar naquela freguesia. Chegou a prometer-me 20$000 réis, mas o espectáculo ainda deu mais do que os outros. Estava lá ainda mais gente da cidade. Trabalhei também ali com uma junta de bois.
Exibi-me na Ribeirinha com a coadjuvação da Tuna Luís Proença.
Dei ainda espectáculos nos Cedros e no Salão.
Uma noite entrei no estabelecimento de Luís Proença. A loja estava em estado de sítio. Um francês, capitão dum navio, tinha-se embriagado, dera um soco no dono da loja, e não lhe pagara nada, provocando vários conflitos com os franceses.
Ninguém se atreveu a dizer-lhe nada. O homem tinha saído e já se dirigia a bordo. Tomei-lhe o passo e obriguei-o a voltar para a loja, pagando a despesa, o prejuízo que fizera e até indemnizando o Proença pelo soco que lhe dera.

***
Não encerrarei esta crónica sem contar um episódio duma das minhas passagens nas Flores.
Depois de correr a ilha toda, não sabia como entreter o público de Santa Cruz, enquanto não chegava o vapor.
Para atrair gente, lembrei-me de anunciar que ia comer um homem vivo e que se o não fizesse, restituía o dinheiro aos espectadores.
A casa encheu-se à cunha. O espectáculo foi na sala do tribunal.
Fiz força braçal, dental e prestidigitação.
A certa altura anunciei:
- Chegou a hora de comer um homem vivo. Quem quer ser comido?
Houve uma certa indecisão no público, até que um mulato se levantou e exclamou com ar de desafio:
- Eu!
Convidei-o a avançar e comecei a perguntar-lhe pela família, pelos haveres, se sofria de qualquer doença… O homem não tardou de afinar com tanta pergunta, mas eu fui-lhe observando que, como ele tinha que desaparecer, precisava de conhecer a sua vida…
O momento era solene e cómico ao mesmo tempo. Começavam a ouvir-se alguns risos.
O mulato reagiu e exclamou:
- Eu vim para aqui para ser comido e não para você fazer pouco de mim. Ou come-me já, ou então deixe ver o meu dinheiro!
- Sim, senhor! Vou já fazer-lhe a vontade, respondi-lhe. Deixe cá ver uma mão.
O homem estendeu uma mão e eu mordi-lhe num dedo com vontade.
A vítima gritou e soltou uma praga. O público riu a valer, enquanto o rapaz se retirava da sala.
Voltei-me, então, para os espectadores e declarei:
- Estou pronto a come-lo. Tinha de começar por uma parte. Há por cá mais algum senhor que queira ser comido?
Risada geral, muitos aplausos e o espectáculo foi dado por terminado, sem que eu tivesse de devolver o dinheiro das entradas.

XXI
Nos Açores e na Madeira

Duma das minhas “tournées” aos Açores tenho ainda um episódio a contar, sucedido nas Flores.
Trabalhava, então, comigo um prestidigitador estrangeiro, que apresentava também trabalhos de hipnotismo e transmissão de pensamento – trucs deveras engenhosos que intrigavam o público.
O prestidigitador dizia à sua companheira que fazia de médium:
- Piense bien! Conteste bien!
A mulher ficava em transe e respondia ao que ele perguntava, depois de haverem combinado as respostas…
O administrador do concelho de então, entusiasmado, como muitos, com os trabalhos, procurou-me para eu conseguir que o médium dissesse onde se encontrava o filho dele, que tinha ido para o Brasil e já não escrevia há um ano.
Falei ao prestidigitador, que disse que o receberia na sua casa.
O prestidigitador começou a preparar o ambiente, fitando o relógio para contar as pulsações do médium e dizendo que o trabalho era de responsabilidade.
Depois de tudo bem preparado, a mulher respondeu que o filho do administrador estava bem, que andava numa viagem de negócios e em breve voltaria à sua terra.
Como se pode calcular, o homem ficou satisfeitíssimo, deu uma boa gratificação ao prestidigitador e contemplou-me também com 20$000 réis.
Fomos para a Horta, onde trabalhamos e pouco tempo depois o senhor Visconde Borges procurou-me, informando-me que tinha vindo um mandado de captura, das Flores.
Ficamos muito admirados, sem saber da causa de tal ordem.
Quando fomos informados do que sucedia, o prestidigitador explicou o que se passara, dizendo que não podia proceder doutra forma, pois dava mais espectáculos e se não fizesse a consulta ao médium, passaria mais facilmente por intrujão…
Acrescentou que não pedira nada pelo trabalho e que tinha só recebido o dinheiro que lhe quiseram dar.
- Ah! Vocês, então, não pediram nada? – Inquiriu o senhor Visconde Borges.
- Não, senhor, respondemos.
- Então foi pena que ele não tivesse dado mais…
Soubemos, depois, que o homem tinha oferecido um banquete, fiado na informação do médium, mas três dias depois chegara o filho doente e sem dinheiro.
Que decepção e que arrelia!
O acaso prepara, às vezes, destas partidas…

***
Depois de ter trabalhado durante algum tempo nas ilhas, voltei a S. Miguel. Passei a trabalhar com as irmãs Pombos, tendo nós, dado espectáculos nas Capelas, na Ribeira Grande, na Vila Franca, na Povoação e nas Furnas. Seguimos depois para a Madeira.
Os meus espectáculos agradaram no Funchal.
Um dia, a direcção do asilo de infância convidou-me para dar uma corrida dental do Pilar de Benja para o mar. Aceitei o convite, pois tratava-se de uma festa de caridade e eu nunca me recusei a trabalhar para os pobres. O dia foi marcado e começou a propaganda para a prova dental. Uma semana antes da mesma, estava eu trabalhando na Ponta do Sol, quando me caiu sobre o peito um alter de 100 quilos, durante uma prova arriscada.
Nessa semana fui desafiado para a luta greco-romana por Otto Vanarkith, do Transval. Apesar de ter sido marcado o encontro para o mesmo dia da corrida dental, aceitei o desafio.
No dia anunciado, numeroso público aguardava a travessia do Pilar de Benja para o mar, suspenso pelos dentes. O cabo não estava bem esticado, sucedendo que me enfiei na água, com tal força que rebentou o cinto de salvação que levava.
Esperavam-me num barco o senhor João Augusto Fernandes, um viajante alemã e o dentista Dr. Azevedo Gomes, que foi o único que teve a serenidade precisa de se lançar à água para me pescar.
Quando voltei a aparecer, não tinha força para subir para o barco. Um outro barco aproximou-se para me auxiliar.
Ao chegar a terra, atravessei o cais entre aplausos do público. No Golden Gate mudei de roupa e depois tomei uma taça de Champanhe com os senhores Fernando, Vieira de Castro e outros.
Na noite desse dia, apesar de magoado e fatigado, lutei com Otto Vanarkith. O meu adversário pôs-se na defensiva e para que a luta não ficasse sem brio, tive que empregar golpes. O combate prosseguiu sem qualquer decisão, até que, depois de me encontrar bastante fatigado, o adversário derrotou-me.
Pedi desforra, mas ele seguia naquela noite para as Canárias, onde depois me encontrei com ele.